VIOLÊNCIA PAGA

04/03/2015 15:13

Dont know 2

Andando sem muita pressa pelo corredor escuro e mal iluminado, vou ajeitando a luva descartável em minha mão com cuidado e delicadeza, já que o trabalho que vinha a seguir iria exigir muita (e boa) agressividade. Meus passos ecoavam até onde eu não podia ver, e continuavam ressoando até o infinito. Minha respiração tranquila só podia ser ouvida por mim mesmo, e era profunda e tranquila.

A maioria das pessoas tem hobbies para passar o tempo, ler um livro, assistir àquela série de televisão que todo mundo conhece, praticar um esporte, escrever, e uma infinidade de atividades. Mas eu não sou esse tipo de gente padrão, estou longe disso, e me orgulho, afinal, ser diferente (e insano) nos dias de hoje é algo bem proveitoso, ainda mais quando se tem um mundo cheio de inovações e facilidades ao seu redor, que atende a tudo que qualquer tipo de pessoa precise.

O meu caso é que não me satisfaço lendo um livro ou assistindo a um filme, muito menos jogando uma partida de futebol ou indo ao cinema. Ter relações sexuais não é algo que entre nesses conceitos, pois antes que mais malícias venham à cabeça, o ponto aqui são passatempos prazerosos, e apesar de ser muito prazeroso, para muitos não é um simples passatempo.

Dor. Isso que eu gosto. Não sou nenhum tipo de sadomasoquista, na verdade estou mais para sádico. Característica humana desprezável e odiada por muitos, que julgam sem saber o que estão falando. Somente porque é algo obscuro, que vai contra o senso comum do povo que é errado.

Tortura, dor, sangue, parece tudo muito estranho e maligno à primeira vista, mas digo por experiência própria, tudo isso passa depois da primeira experiência, e depois disso você não quer parar mais. Cada dia ansiando por aquele momento, cada segundo que se passa contando o tempo para que aquele maldito dia chegue para que você possa fazer o que realmente te agrada.

Podem me ver como um demônio, um monstro desalmado, ou qualquer porcaria que lhes venham à mente, mas quem nunca vivenciou a sensação boa que isso proporciona, não sabe o que está perdendo. Irmãos mais velhos não sentem pena de machucar os caçulas, e vice versa, então por que há de existir desavença quanto a todo o resto?

Em todo caso, não posso continuar batendo nessa tecla por muito tempo, pois posso escrever uma bíblia sobre esse assunto que ainda irão me chamar de louco e insano e me condenar como faziam na Idade Média (e isso é um ponto interessante e deve ser ressaltado, pois, afinal, os próprios cristãos queimavam seus irmãos em fogueiras e afogavam mulheres inocentes. Que moral eles possuem para me dizerem o que devo ou não fazer se eles mesmos queimavam-se há somente alguns anos atrás?).

Abro a porta lentamente, apreciando seu ranger encher aquela sala escura, com uma única e solitária lâmpada empoeirada, que banhava o ambiente com sua fraca e pálida luz amarela. Teias de aranha, além de muita poeira, se acumulavam por cada extremidade da sala, e alguns insetos caminhavam e rastejavam sem preocupações em seus lugares. Apesar de estar localizado no subterrâneo, bem profundo mesmo, o local era gelado e úmido, e minhas narinas instantaneamente se contraíram assim que o ar gelado penetrou suas áreas.

Fechei a porta com cuidado, e um som seco e abafado preencheu o ambiente por alguns segundos, e desapareceu. Andei até a mesa localizada no centro e coloquei meu avental e minha máscara, me preparando para o que estava por vir, e como aquilo era bom.

Passei a mão delicadamente sobre meus múltiplos e variados instrumentos, sentido o toque frio de cada um e me deliciando com aquilo. Tamborilei os dedos por entre os espaços existentes, pegando alguns e os limpando com a ponta de meu avental, que estava um pouco sujo, tenho de admitir.

Na mesa, deitado e sem roupa, estava minha vítima. Não dou muita atenção a quem está deitado lá, somente se está de acordo com o que pedi, e felizmente, naquele dia, não havia nada de errado. Homem, adulto, alto e magro, únicas características que exigi. O garoto escolhido devia ter um pouco mais de vinte anos, tinha a pele muito branca e sardenta, e o cabelo naturalmente ruivo.

Que desperdício. Os ruivos já não existem em abundância hoje em dia, e agora mais um se vai em minha sala. Pelo será por uma boa causa, e ainda há minha linda mulher com aqueles seus cabelos vermelhos reluzentes me esperando em casa.

O homem estava dopado por conta do comprimido que lhe deram, porém, o que importava era que estivesse consciente do que estava acontecendo no momento das operações. Ele estava desnorteado, mas iria sentir a dor e saberia muito bem o que estava se passando. Maravilha. Exatamente o que pedi.

Começo esquentando uma fina barra de metal em brasas ardentes, e vejo ele me olhar e tentando gritar, enquanto a mordaça ao redor de sua boca impedia que seus berros fossem ouvidos. Aprecio o crepitar do carvão enquanto é corroído pelo calor do fogo das brasas. Permaneço parado, olhando as chamas tremularem, assobiando uma canção que ouvi mais cedo no rádio naquela manhã.

Assim que percebo que já é o bastante, retiro a barra incandescente das chamas e me dirijo até meu companheiro imobilizado. Deslizo a barra de ferro pelo seu braço. Ele se contorce e grita muito alto enquanto sua pele e sua carne são queimadas e marcadas, sendo enegrecidas pelo calor desnorteando de minha barra.

Por onde ela desliza, a pele enegrece e adquire um tom de podridão incômodo. Ele chorava e tentava chamar alguém, inutilmente, e enquanto isso, tiro a barra de seu braço e queimo um pouco de sua barriga. O homem tenta se levantar, se virar de lado, mas não há nada que ele possa fazer que vá salvá-lo. Como adoro isso.

Lágrimas salgadas escorrem pelas suas bochechas sardentas e vermelhas, enquanto a dor excruciante começa a nocauteá-lo e a balançar seus sentidos. Consigo sentir seus sentidos básicos falhando e o ar faltando em seus pulmões. Sua dificuldade de respirar é clara, e seu peito sobe e desce sem ritmo algum, enquanto ele tenta ignorar a dor que o domina por todos os lados do corpo.

Depois de tirar a barra incandescente de sua barriga, arrasto-a por sua coxa, queimando e sinto todos os seus músculos se contraindo violentamente de um segundo para o outro. Apesar da mordaça que usava, seu berro fora um dos mais altos que havia ouvido em toda a minha mísera e miserável existência. Assustador e doentio, exatamente como gosto.

Quando me sinto satisfeito com os resultados obtidos, vou até minha mesa e decido qual será o próximo passo, e devo decidir com cuidado, pois dependendo do que usarei, pode significar o fim dele e, consequentemente, o fim de minha diversão.

Atrás de meu ser, escuto seu choro de medo, desespero e dor, todos esses sentimentos misturados e juntos numa mente completamente e confusa, além de dopada, onde nada consegue ser processado, somente o fato de que não tem como ele sair vivo dali.

Penso em arrancar seus dentes, um por um, com aquele meu alicate de pontas douradas que comprei, mas isso significa que teria de tirar sua mordaça. Já havia feito isso um milhão de vezes antes, e quase sempre não terminava dando certo. Melhor outra alternativa.

Arrancar dedos e unhas era algo que estava enjoado de fazer, podia contar nos dedos as vezes que eu não havia feito aquilo, e tirar as falanges uma por uma, ouvindo o barulho do partir dos ossos… Muito bom, mas já não tinha a mesa graça de antes… Ou quem sabe…

Pegando minha marreta, penso numa maneira mais inovadora de fazer tudo aquilo que eu sempre havia feito. Vou até onde minha vítima está e estico seu braço, que luta contra minhas mãos e resiste, inutilmente. Amarro seu pulso com uma corda de couro e me certifico de que não há como ele tirá-la.

Dirijo meu olhar até ele, e vejo seus olhos saltados e vermelhos me encarando com ódio e piedade, enquanto observam também sua mão. Ele prendia a respiração e estava rígido como uma pedra, e nesse instante desço com todas as forças a marreta sobre sua mão. O barulho de ossos se quebrando ecoou em meus ouvidos, e ele se contorceu e gritou incapaz de sair do lugar.

Nem mesmo uma criança era capaz de chorar como ele chorava de dor naquele instante, e sua pele clara adquirira um tom muito mais pálido do que já era, chegando a ficar tão branca como a neve. Lágrimas não eram o que escorriam de seus olhos, e sim uma cachoeira sem fim, ao mesmo tempo em que ele gritava sem cessar e tentava mover seus dedos, que jamais teriam alguma utilidade.

Bato mais uma vez, com a mesma intensidade. Dessa vez, por conta de antes, a dor lhe pareceu menos intensa, mas ainda sim, ele gritou, berrou, urrou, e se moveu violentamente em seu lugar, girando de um lado para o outro seu corpo nu e gelado. Toco sua mão e passo os dedos pelas suas queimaduras.

Os ossos estão tão fraturados quanto farinha dentro de um saco, são somente um amontoado de cacos pontiagudos, alojados debaixo da carne e banhados de sangue. Satisfeito com aquilo, ponho a marreta de volta ao lugar e pego minha tesoura de jardim, instrumento especial que inicialmente me parecia sem muita utilidade.

O primeiro dedo arrancado foi o dedão, e um jato de sangue vermelho claro foi espirrado alguns centímetros assim que arranquei-o. O membro morto caiu no chão e rolou em sua própria poça de sangue, parando antes de escorregar um pouco.

O homem não tinha mais forças para lutar contra a dor, ou para gritar e se contorcer, e se rendeu a qualquer coisa que eu estava prestes a fazer. Essa é uma das minhas partes preferidas da operação. Seu choro é o único elemento de relutância que lhe restou, e as lágrimas escorrendo pelo canto de sua bochecha aparentam serem as únicas resistentes.

Faço uma tensão antes de continuar, e fecho minha tesoura ao redor de seu indicador, e o dedo jorra sangue assim como seu antecessor. Ainda é possível ouvir alguns ossos se partindo, ou aquilo que sobrou dos ossos, e suas expressões de dor são cada vez mais nítidas e fortes, a cada segundo se tornando mais intensas.

Repito o processo por todos os dedos, arrancando cada um com prazer, sentindo o toque molhado e quente do sangue escorrendo por minha pele e adentrando minhas roupas e luvas. O que percebo, entretanto, é que ele não irá aguentar muito tempo, e seu organismo logo morrerá. Hora de por um fim em tudo isso de uma vez antes que ele se vá e eu não participe do processo.

Maldito sangue fraco, esses homens de hoje em dia que não aguentam nada, há somente alguns anos atrás eles lutavam mais por sua vida, era, mais resistentes, mais batalhadores. Mas hoje em dia, bastam alguns dedos arrancados para que a pessoa começasse a deixar sua vida.

Encarando meus instrumentos mais uma vez, permaneço pensando em qual será o fechamento do processo, e não pode ser nada pequeno, deve ser um final grandioso, algo memorável tanto para mim quanto para ele, principalmente para ele. Motosserra. Clichê e banal demais, já a usei tantas vezes que acaba perdendo a graça; é uma baita destruição, mas não vale a sujeira que gera, sem falar no barulho, pois estou com uma leve enxaqueca.

Liquidificador. Já havia o usado para desfigurar alguns rostos e destruir algumas mãos e pés, e foi bem divertido, quem sabe não será o escolhido hoje. Tenho seringas com veneno. Silencioso e mortal, algo que raramente eu uso, e penso em aproveitar mais esse tipo de estratégia. Pego o frasco de veneno em minha mãe e o giro, ouvindo o líquido ondular dentro do pote.

E de repente meu telefone toca, é minha esposa. Hoje temos visitas para o jantar, os pais dela, meus sogros. Porcaria! Maldição! Como fui esquecer-me desse jantar? Tive que agilizar meu trabalho, infelizmente. O que faço a seguir é simples, e pegando uma peixeira, degolo o rapaz com um simples movimento de pulso.

Somente não contei com a rajada se sangue espirou em minha água, num jato que se repetiu duas vezes, tempo o suficiente para seu coração acelerado dar suas últimas batidas antes de morrer de vez. Olho bem nos olhos dele, abertos e escancarados, encarando o nada, enquanto sua boca retorcida gritava suas últimas palavras e preces, que não foram ouvidas por ninguém a não ser ele próprio.

Tiro as luvas, me limpo e coloco minhas roupas sujas de vermelho em um canto, alguém provavelmente passará por lá mais tarde para cuidar daquela bagunça, afinal, é para isso que estou pagando. Deixo o corpo numa banheira cheia de gelo que eles mesmos providenciaram, e coloco meu terno e gravata, calçando meus sapatos.

Fico pensando no que minha esposa preparou, quem sabe uma deliciosa lasanha? Ou uma macarronada? Apresso-me, se for depressa ainda posso ver a novela com minha amada e bater uma bolinha com meus filhos, tem dias e dias que eles estão me pedindo. Mas minha cabeça está em outro lugar, pois semana que vem não haverá somente uma pessoa me esperando deitada sobre aquela mesa, e sim duas moças jovem que encomendei. A carnificina será das melhores, e como será.

Fonte: Minilua