Solitude

10/12/2014 00:11

Ele não sabia onde estava. Nunca tinha estado antes naquela cidade estranha, sombria. O rapaz se encontrava perto de um grande galpão abandonado e ao seu lado havia uma praça rodeada de árvores secas, distribuídas de maneira circular em volta de bancos de concreto; alguns inteiros, outros destruídos. O movimento de pessoas era escasso e o céu estava começando a se fechar. Ele visualizou mais um pouco o seu arredor. Lojas abandonadas se espalhavam numa longa avenida que outrora, com certeza, fora muito bem frequentada. Era até possível escutar o silêncio que pairava sobre a região, bem, parte dele.

Yago respirou fundo e levou a mão à cabeça, coçando-a. Como ele foi parar ali? A última coisa de que se lembrava era de estar em seu carro, viajando para a casa de seu melhor amigo Eduardo. Alguém o acompanhava na viagem… Ele puxou da memória… Quem? Ah… Sua namorada. Ele iria apresentá-la ao amigo. Depois de tantos anos esperando, ele finalmente havia encontrado a pessoa certa. A mulher que domou o seu coração e o fez enxergar que a vida valia muito a pena.

O rapaz já estava começando a ficar frustrado por não se lembrar de nada. Uma dor começou a latejar em suas costas e ele decidiu se sentar em um dos bancos de concreto daquela esquisita praça, para ver se a repentina dor passaria como num passe de mágica.

– Miho!? – disse ele, em alta voz. Sua namorada. Onde será que ela estava?

Desorientado e com o coração comprimido, Yago levantou-se devagar e começou a andar pela grotesca cidade, ignorando a dor nas costas que parecia estar desaparecendo. À medida que ele andava, as ruas tornavam-se mais estreitas, tornando-se quase vielas; o movimento de pessoas desaparecia e o vento iniciava um sopro frio e macabro, arrastando um aroma desagradável de lixo e de coisas podres que atingia as narinas de Yago.

O jovem levou as costas da mão até o nariz, obstruindo um pouco a entrada de ar e olhando com cuidado as laterais dos lugares por onde passava. Quando virou em uma esquina ele acabou esbarrando com um dos pés em uma garrafa de vodca, vazia, chutando-a para longe. Ela, por sua vez, impactou-se contra o muro e despedaçou-se. Yago assustou-se com aquilo, e o barulho estrépito do objeto contra a parede o despertou para a realidade. A realidade de que Miho estava parada, olhando para ele, no final daquela rua que acabara de entrar.

– Meu bem! – gritou ele, começando a correr atrás daquela figura magra e graciosa. A moça, porém, não esperou a sua aproximação e começou a fugir.

– Ei, o que está fazendo? Sou eu! Yago!

Ignorando completamente os gritos do namorado, a garota afastou-se cada vez mais, até que foi engolida pela bizarra neblina que havia surgido de repente naquele lugar.

– O que está havendo? – perguntava-se Yago, sem parar de correr, seguindo a direção de sua amada.

Num determinado momento e já ofegante, ele conseguiu visualizar a mulher. Sentada, de costas e em frente a um estabelecimento que parecia uma pastelaria. Parecia-se muito o local onde os dois se conheceram.

– Miho… – sussurrou ele, aproximando-se devagar.

Já perto da garota e sentindo o leve perfume de rosas que exalava dela, Yago esticou a mão para tocar-lhe o ombro. Em vão. Antes mesmo de conseguir, Miho levantou-se velozmente e começou a correr novamente, sem destino. Yago não estava entendendo o porquê de tal fuga. Será que eles haviam discutido durante a viagem? Será que se perderam no caminho, por isso haviam parado naquela cidade bizarra? Deve ser por isso que ela fugia dele, pois estava zangada. Não, não… A Miho não agia daquela forma, nunca.

Algo estava errado.

Quando Yago se preparava para correr, sentiu uma presença hostil em suas costas. Alguém o estava observando. Sem nem ao menos olhar para trás, o rapaz começou a correr, e correu mais rápido quando escutou um “Pare!”. A voz não era nada amigável e estava um pouco abafada, talvez pela dona da mesma estar cansada, assim como ele.

Logo, Yago, que ao mesmo tempo fugia da voz desconhecida, também perseguia a figura de sua namorada. Trevas noturnas começaram a dominar o céu, engolindo o pôr do sol, e a corrida por entre as vielas ficava cada vez mais complicada. Ele escutava “Yago, não me siga! Ainda não é o momento!” da boca de Miho.

– Para onde está indo? Volte aqui!

E a voz em suas costas gritava:

– Pare de correr! Pare! Pare! Não vá atrás daquilo! Volte!

dark city

É claro que ele não iria parar. Mas, sentindo o peso do cansaço e notando que já não conseguia mais puxar o ar para os pulmões, o rapaz viu as paredes ao seu redor ficando tortas e embaçadas, e o mundo girou. Yago havia tropeçado em algo e caíra no chão, com força. Em seus ouvidos, a voz de Miho perambulava, enquanto o “pare de correr” em suas costas havia cessado, ou seja… A voz que o seguia o alcançou.

Yago estava estatelado sobre as pedras que formavam a rua, de barriga para cima. Ele ouviu passos lentos se aproximando e uma respiração pesada acompanhada dos mesmos. O rapaz fechou os olhos e levou os antebraços até o rosto, num ato de proteção. O que aquela figura poderia fazer a ele? Com um dos olhos semicerrados, o garoto viu que uma sombra pairava sobre ele, sendo impossível identificá-la por causa da luz do pôr do sol que atingia as costas da mesma.

– Vai me matar?

– O quê? Enlouqueceu?

Aquela voz. Não, não era possível.

- Miho?

– Fiquei pedindo para você parar de correr! O que deu em você? Eu disse para não seguir aquilo!

Yago não compreendeu nada. Quando menos percebeu, a cidade desapareceu de sua vista e agora ele flutuava no vazio. Uma força estranha o puxou para algum lugar, um lugar que transmitia medo e ao mesmo tempo paz. Uma espécie de solidão.

Em um leito de hospital, Eduardo, o melhor amigo de Yago, debruçava-se em lágrimas sobre o corpo em coma do rapaz. Yago o visitaria, mas no caminho, descobriu que a garota que sempre gostou – mas que nunca teve coragem de dizer – havia começado a namorar outro sujeito. O jovem parou num bar e acabou enchendo a cara de vodca, voltou ao volante atordoado e acabou capotando em uma curva, dita como perigosa, em uma rodovia a caminho da casa do amigo.

– Por que fez isso, cara? – fungava Eduardo, segurando a mão do amigo hospitalizado. — A Miho soube do acidente… Ah… Ela chegou.

–  Me sinto culpada.

– A culpa não é sua.

–  Se ao menos ele tivesse me contado antes…

– O Yago é assim mesmo… Ele tem medo da rejeição. Ele tem medo do não. Ele acaba guardando tudo para si. Sempre foi dessa forma. Miho olhou para o relógio.

–  Meia noite, Eduardo. Faça um desejo.

–  Que o Yago volte para nós.

– Sim.

Ele perseguiu a morte, mas o amor o encontrou.