Pela Escada

06/10/2014 16:20

Não que estivesse atrasado, porém se esperasse por mais alguns minutos certamente ficaria.
Ajeitou a mochila sobre o ombro e apertou novamente o botão do elevador mas, por mais que ouvisse os cabos se movendo e o motor funcionando, nunca chegava até o seu andar.
Eram apenas três andares. Preferiu usar as escadas.
Abriu a porta do corredor que conduzia ao primeiro lance e o sensor de movimento imediatamente acendeu a luz, revelando o caminho até uma porta no lado oposto, que dava na outra metade do andar.
Hesitou por alguns momentos, de ouvido em pé, para ver se o elevador já estava chegando. Apenas o som do motor continuou ecoando pelo fosso que atravessava os andares, mas nem sinal dele chegar.
Então entrou e fechou a porta atrás de si, bem no momento que ouviu um "clique" e o sensor apagou a luz. O tempo de espera não era muito longo.
A escuridão caiu maciça à sua volta, negra e quase sufocante. Um indício de claustrofobia o fez agitar os braços ansiosamente, se sentindo um idiota assim que a luz tornou a acender.
Achou melhor se apressar. Se a luz do andar acima apagasse antes que chegasse no perímetro do sensor abaixo, poderia acabar rolando alguns degraus com aquela escuridão tão intensa.
Cada andar era separado por três lances de seis a sete degraus, virando sempre à direita. Desceu o primeiro e deu de cara com a escuridão do segundo andar invadindo o segundo lance de escada. Sentiu um leve arrepio e começou a descer mais rápido, preocupado com a hora que a luz acima apagasse.
A luz abaixo levou um segundo a mais para acender, quando atingiu o último degrau do terceiro lance. No instante seguinte ouviu o "clique" da luz acima se apagando.
"Melhor descer um pouco mais rápido", pensou. Como da outra vez o lance do meio estava escuro até a metade. Acelerou o passo, começando a ficar mais nervoso do que imaginou que ficaria.
Curiosamente, dessa vez a luz superior apagou antes que terminasse o terceiro lance e a escuridão o envolveu por dois segundos.
Nesses dois segundos sentiu algo que o apavorou: algo o espreitava através da escuridão. Podia sentir e quase ouvia sua respiração. A luz superior continuava apagada.
A luz do andar que estava acendeu. Não havia ninguém.
Agora começou a descer as escadas correndo, sentindo um suor frio escorrer pela suas costas. Não fazia sentido algum, mas quanto mais rápido ia, mais rápido as luzes apagavam e mais tempo demoravam a acender.
Já não fazia ideia de em qual andar se encontrava, nem quantos lances ainda haveria de descer, mas a presença que o perseguia era uma certeza constante e cada vez mais próxima. Ouvia passos, mas não conseguia identificar se eram os seus que ecoavam escada acima.
Tropeçou e deixou a mochila cair. Ouviu o "clique" da luz superior apagando e nada da próxima luz acender. Abaixou-se e tateou o chão atrás da mochila, notando que por mais ruidosa que sua respiração estivesse, não encobria o pavor de sentir que algo se aproximava inexorável e lentamente pelas suas costas, como se tivesse a certeza de que o alcançaria por mais que corresse.
A luz acendeu e viu o "T" pintado na parede. Finalmente o térreo. Pegou a mochila a tempo de sentir um leve movimento cálido em sua nuca.
Correu em direção à porta de saída sem coragem de checar se tinha mesmo alguém atrás de si e quanto mais corria, mais longe a porta ficava. Desesperou-se. Algo escorreu pelo seu rosto. Poderia ser suor ou lágrimas, mas não lembrava de ter começado a chorar. Faltava pouco e estendeu a mão para segurar a maçaneta. Um último impulso e soltou um gemido que foi quase um grito de terror. Se demorasse mais um segundo para alcançar a maçaneta a luz poderia…
"Clique."

Fonte: Medo B