O Corredor

26/02/2015 19:59
O cadáver que ela levava para o necrotério chamou a sua atenção pela beleza, o que fez ela querer saber a causa da morte de tão belo moço...
 
Marta fazia seu trabalho diariamente sem reclamar, pode se dizer que apesar do péssimo salário ela até gostava. Afinal dez anos carregando cadáveres da sala de cirurgia para o necrotério, por mais estranho e mórbido que fosse a tarefa, eram dez anos. Já havia se acostumando de tal forma, que parecia um trabalho comum como todos.
 
Era só mais um dia de trabalho, e somente mais um corpo sendo levado para o necrotério. A única coisa especial neste dia era que Marta nunca havia visto um jovem tão bonito na sua maca. Pensou no que podia ter acontecido ao rapaz, tão novo e bonito merecia desfrutar mais a vida. Então enquanto andava pelo extenso corredor resolveu pegar o prontuário que seguia junto à maca e ler.
 
Sua dúvida foi pouco esclarecida, pois em letras garrafais estava escrito no prontuário: Falência múltipla dos órgãos, por causa desconhecida. Em outras palavras simplesmente o corpo do rapaz parou de funcionar, como um relógio velho que teve sua máquina gasta pelo tempo. Porém era um jovem, não fazia sentido algum.
 
Enquanto andava lendo o prontuário, Marta notou que aparentemente pouco havia andado pelo corredor e que a porta de aço do necrotério parecia estar à mesma distância de quando iniciou a caminhada. Olhou para trás e notou que a porta da sala de cirurgia já estava distante. Resolveu então aumentar o passo para chegar rápido ao necrotério, não que estivesse com medo, mas precisava retornar rapidamente ao centro cirúrgico.
 
Aumentou o passo e não conseguiu ver a distância diminuir, o que a fez pela primeira vez em dez anos de trabalho suar frio enquanto andava pelo corredor. O desespero começou a subir pelo seu corpo e resolveu correr até a porta do necrotério. Mas não adiantava, parecia que não saia do lugar por mais que corresse. Olhou novamente para trás e viu ao longe a porta do centro cirúrgico. Seu coração começou a acelerar, enquanto seu corpo suava frio. Sua barriga começou a doer e perdeu o controle do seu corpo, que dava pequenos tremidos de frio.
 
O desespero começou a crescer dentro de si, Marta então gritou com toda a sua força. Mas ninguém veio ao seu socorro, largou então a maca e correu na direção do centro cirúrgico. Porém teve o mesmo efeito de antes, era como se não saísse do lugar, sem forças caiu sentada no chão e olhou para cima. Foi quando notou que o teto estava tomado por uma espécie de fumaça negra, mas não era uma simples fumaça.
 
Era como se ela tivesse vida, era como se fosse um ninho de aranhas gigantes esfumaçadas. Tecendo suas teias por todo o teto do corredor, aquilo era tão absurdo que o grito não conseguiu sair da sua garganta. Marta somente olhava para o teto com a certeza de que havia enlouquecido.
 
Foi quando uma voz forte masculina interveio em seu momento de fascínio:
 
- Garota não se preocupe, elas estão aqui por minha causa.
 
Marta olhou para a maca e sentado nela estava o jovem e belo rapaz. Ainda estava pálido e com os olhos, salpicados de vermelho misturando-se ao azul. Mesmo depois de morto Marta ainda achava-o belo. Estranhamento ela se sentiu um pouco segura ao ver o rapaz. Por segundos esqueceu as aranhas de fumaça que estavam no teto, mas vagarosamente elas desciam pelas paredes, aumentado o que se podia chamar de teia.
 
- Porque elas estão atrás de você. – Perguntou Marta com a voz embargada pelo desespero.
 
- Vieram me levar, para um lugar não muito agradável.
 
- Inferno? – Perguntou Marta.
 
- Se quiser assim chamar, pode ser! Inferno.
 
- Isso não pode ser verdade, moço. Eu trabalho aqui há dez anos. Eu nunca vi isso acontecer.
 
- É porque “aqui”! Não é o “aqui”, que você está pensando. Estamos em uma dimensão entre o seu mundo e o mundo deles.
 
Marta estava fascinada pelo ocorrido olhava ao seu redor desesperada, era algo que não conseguiria conceber nem mesmo em seus sonhos mais absurdos. Mas estava ali. Aos poucos ela viu as aranhas esfumaçadas, cobrirem o corpo do rapaz. Fechou os olhos, não conseguia ver o que estava acontecendo. Ouviu seu nome ser chamado mais uma vez:
 
- Marta! Marta! Está tudo bem?
 
Abriu os olhos lentamente e olhou ao seu redor, o corpo do rapaz estava na maca e não havia sinal algum das aranhas esfumaçadas, Aporta do necrotério estava bem a sua frente e na sua mão segurava o prontuário do rapaz. Mas uma nova figura estava no corredor, era um dos médicos que olhava espantado para Marta.
 
- Sim, doutor. Me desculpa, eu estava lendo o prontuário.
 
- Estou vendo Marta, mas já faz mais de uma hora que você saiu do centro cirúrgico para levar o rapaz em óbito e não voltou. Ficamos preocupados.
 
- Não é nada me distrai lendo, é que o rapaz é tão jovem e bonito e morreu de causas não conhecidas. Estava pensando no que podia ter sido.
 
O médico deu um sorriso e falou em tom de desabafo:
 
- Podia ter me perguntado, eu conversei com o policial que trouxe ele ao hospital. Parece que ele foi encontrado em um galpão abandonado. Sem nenhum sinal de violência, desconfiamos que seja envenenamento. Mas o legista vai ter uma conclusão melhor que a minha. 
 
- É uma pena doutor, um jovem tão bonito morrer assim envenenado.
 
- Bom talvez tenha merecido, o mesmo policial me confidenciou que estavam investigando o rapaz há alguns meses. Ele é suspeito pelo assassinato de doze mulheres.
 
Marta encerrou a conversa com o médico e entrou para colocar o corpo em uma das gavetas frigorificas do necrotério. Feito isso pensou no que havia acontecido no corredor e na estória do rapaz. E como sentiu se confortável com as palavras do jovem, apesar de todo o ocorrido e de tudo que o doutor lhe disse, ela tinha uma vontade estranha de estar com ele.
 
Após algumas horas o médico, sentiu a falta de Marta mais uma vez, e voltou ao necrotério. Foi quando encontrou a enfermeira caída no chão, os olhos saltados e a face roxa indicava que ela havia sido asfixiada. O médico correu para tentar salvá-la, porém ao abrir sua boca centenas de pequenas aranhas saíram pela sua garganta e se espalharam pelo chão.
 
Não havia mais o que fazer, Marta estava morta.