Lendas: A mão do macaco!

26/11/2014 15:28

A mão do macaco

Lá fora,  a noite estava fria e úmida, mas, na pequena sala de Laburnam Villa, os  postigos estavam cerrados e o fogo ardia intensamente.  Pai e filho jogavam xadrez.  O primeiro tinha ideias próprias sobre o jogo que envolviam mudanças radicais, colocando o rei em tão  graves e desnecessários perigos que provocava comentários até mesmo da grisalha  senhora que tricotava placidamente junto à lareira. – Escute  o vento – disse o Sr. White, que, percebendo tarde demais que cometera  um erro fatal, cuidava benevolamente  para que o filho não o  percebesse. – Estou ouvindo – disse o  último, examinado impiedosamente  o tabuleiro, ao estender a mão. – Xeque. – Não creio que ele venha esta noite – disse o pai, com a mão a pousada sobre o tabuleiro. – Mate! – replicou o filho. – Este é o lado ruim de viver em um lugar tão remoto – o Sr. White vociferou, com uma súbita e inesperada violência. – De todos os lugares terríveis,  distantes e lamacentos para se morar, este é o pior. O caminho é um lamaçal e a estrada é uma torrente.  Não sei o que essa  gente está pensando. Somente porque há apenas duas casas na estrada, eles não encontram  motivo por que se importar. – Não se preocupe, querido – disse, conciliatória,  a mulher. – Da próxima vez, talvez você vença a partida. O Sr. White ergueu os olhos bruscamente,   a tempo de interceptar um olhar de cumplicidade entre mãe e filho.  As palavras morreram em seus lábios e ele escondeu um sorriso de culpa sob a  barba fina e grisalha. – Aí vem ele – disse Herbert White, quando o portão bateu barulhentamente e passos pesados se aproximaram da porta. O velho levantou-se com uma pressa hospitaleira.  Ouviram-no cumprimentar o visitante, que retribuiu o cumprimento.   A senhora White tossiu delicadamente quando o marido entrou na sala, seguido por um homem alto e corpulento, de  olhos pequenos e face avermelhada. – Major Morris – disse ele, apresentando-o. O major apertou as mãos, e, sentando-se no lugar oferecido, junto à lareira,  observou satisfeito o anfitrião trazer uísque e copos,  e pôr uma pequena  chaleira de cobre no fogo. Ao terceiro copo,  os seus olhos tornaram-se mais brilhantes  e ele começou a falar. O pequeno círculo familiar contemplava com vívido interesse este  visitante  de lugares distantes, enquanto ele empertigava  os largos ombros na cadeira e  falava de paisagens excêntricas e feitos audazes, de guerras, epidemias  e povos estranhos. – Vinte e um anos nisto – disse o Sr. White, voltando-se para a mulher e o filho. – Quando ele partiu, era um simples moço de armazém.  Agora, olhem só para ele. – Ele não parece ter-se saído mal – disse a Sra. White,  educadamente. – Eu gostaria de  visitar a Índia – disse o velho.  – Somente para conhecer um pouco, você sabe. – Aqui, você estará melhor – disse o Major, sacudindo a cabeça.  Deixou o copo vazio sobre a mesa e, suspirando baixinho, sacudiu de novo a cabeça. – Eu gostaria de ver esses templos antigos.  Faquires, malabaristas – disse o velho.  O que foi mesmo que você começou a me contar, certo dia, acerca da mão de um macaco, ou coisa semelhante, Morris? – Nada – disse abruptamente  o militar. – Ao menos nada de que valha a pena ser ouvido. – Mão de macaco? – indagou a Sra. White, curiosa. – Bem, é apenas um pouco do que se pode chamar de magia – disse o major, bruscamente. Os três ouvintes inclinaram-se para frente, interessados.   Distraidamente, o visitante levou aos lábios o copo vazio, e, em seguida, baixou-o novamente.  O anfitrião tornou a enchê-lo. – Vejam – disse o major, mexendo no bolso. – É apenas uma pequena mão, comum, mumificada. Ele tirou algo do bolso e exibiu aos presentes.  A Sra. White recuou com um esgar. Seu filho, porém, examinou a mão mumificada com curiosidade. – Mas o que é que há de especial nela? – perguntou o Sr. White, que a tomou da mão do filho e, depois de examiná-la, deitou-a sobre a mesa. – Sobre ela, um velho faquir lançou um encanto – disse o major. – Um homem muito santo.   Queria ele demonstrar que o destino determina a vida das pessoas e aqueles que nele interferem o fazem para a sua ruína.   Ele lançou sobre essa mão um feitiço para que três diferentes pessoas pudessem formular  três distintos pedidos. O major falou de uma maneira tão impressionante que  os seus ouvintes sentiram suas rizadas soarem um tanto abaladas. – Bem, então por que o senhor não faz os seus três pedidos? – indagou, astuciosamente, Herbert White. O militar olhou para ele como as pessoas maduras soem  olhar para a juventude presunçosa. – Eu já os fiz – disse calmamente  o major, e o seu rosto maculado empalideceu. – E  os três pedidos formulados foram realmente atendidos? – perguntou a Sra. White. –  Foram – respondeu o major, e o  copo chocou-se contra  seus fortes dentes. – E ninguém mais renovou os pedidos? – perguntou a velha senhora. – A primeira pessoa teve, sim, os seus desejos satisfeitos – respondeu. –  Eu não sei quais foram os dois primeiros pedidos.  Mas o terceiro desejo  foi a morte.  Foi dessa maneira que eu obtive a mão do macaco. Sua entonação era tão solene que o silêncio caiu sobre o grupo. – Se você conseguiu realizar todos os três pedidos, Morris, a mão não lhe serve mais para nada – disse,  por fim,  velho homem.  – Por que, então, a conserva? O militar abanou a cabeça. – Por simples capricho, creio eu – disse ele, lentamente. – Se pudesse fazer mais outros três pedidos – indagou o velho, olhando-o fixamente –,  você os faria? – Eu não sei – disse o outro. –  Eu não sei. O major tomou a mão do macaco, balançou-a  entre os dedos polegar e indicador e, subitamente,  lançou-a ao fogo. White, com um ligeiro grito, abaixou-se e arrancou-a de lá. – Melhor seria que a deixasse queimar – disse o militar,  solenemente. – Se você não mais a quer – disse o velho –, dê-a para mim. – Não – disse obstinadamente o amigo.  –  Eu a joguei no fogo.  Se você quiser ficar com ela, não me culpe pelo que vier a acontecer.  Lance-a novamente no fogo, como um homem sensato. O outro sacudiu a cabeça e examinou de perto a sua nova pertença. – Como é que se faz o pedido? – Segure-a em sua mão direita e formule o pedido em voz alta – disse o Major.  – Mas eu o advirto quanto às consequências. –  Parece as Mil e uma noites – disse a Sra. White,  levantando-se e começando a pôr a mesa.  – Você não acha que poderia pedir quatro pares de mãos para mim? O marido tirou  o talismã do bolso e, em seguida,  todos  três caíram na gargalhada quando o major, com um olhar assustado no rosto, segurou-o pelo braço. – Se quer mesmo fazer um pedido – disse ele rispidamente –, deseje algo sensato. – O Sr. White guardou novamente o amuleto  no bolso e, arrumando as cadeiras, chamou o amigo à mesa com um aceno.  Durante o jantar, o talismã foi, de certo modo, esquecido, e  depois os três escutaram, encantados, o segundo capítulo das aventuras do militar na Índia. – Se a história sobre a mão do macaco não for mais verdadeira do  que as que ele nos contou – disse Herbert, quando a porta se fechou atrás do convidado, a tempo de ele apanhar  o último trem –, então não devemos dar muito crédito a ela. – Você deu alguma coisa  pela mão?  – perguntou a Sra. White, olhando atentamente para  o marido. – Uma bagatela – disse ele, corando levemente. –  Ele não queria receber, mas eu o fiz aceitar. E ele insistiu novamente para que eu a jogasse fora. – Sem dúvida – disse Herbert, com um horror fingido –  vamos ser ricos, famosos e felizes.  Pai,    somente de início, peça para ser  um imperador, e o senhor não mais será dominado por mamãe. Ele correu em volta da mesa, perseguido por uma injuriada Sra. White, armada com uma capa de poltronas. O Sr. White sacou a mão do macaco do bolso e olhou para ela com um ar de dúvida. – Eu não sei o que pedir.  Isto é um fato – disse ele lentamente. – Parece-me que tenho tudo o quanto quero. –  Se o senhor liquidasse o débito da casa, ficaria muito feliz, não é mesmo? – disse Herbert com a mão pousada no ombro do pai. – Bem, peça então duzentas libras. É justamente o que lhe falta. O pai,  com um sorriso envergonhado da própria credulidade, ergueu o talismã, enquanto o filho, com uma expressão solene, um tanto comprometida  pela piscadela dirigida à mãe, sentou-se ao piano e extraiu alguns acordes grandiloquentes. – Eu desejo duzentas libras – disse o pai em clara voz. Um belo acode de piano felicitou as palavras, mas essas foram interrompidas por um grito estridente do velho homem. A mulher e o filho correram até ele. – Ela se mexeu – disse ele, com um olhar de nojo para o objeto, que caíra ao chão.   – Quando eu formulei o meu pedido, ela se contorceu em minhas mãos como uma cobra. – Bem, eu não estou vendo o dinheiro – disse o filho, enquanto a apanhava e  a punha sobre a mesa.  – E aposto que nunca o verei. – Deve ter sido imaginação sua,  pai – disse a mulher, olhando-o ansiosamente. – Não faz mal.  Não houve nada. Mas, ainda assim, a coisa me abalou. Sentaram-se perto da lareira novamente, enquanto os homens terminavam de fumar os seus cachimbos. Lá fora, o vento soprava ainda mais vigorosamente. O velho sobressaltou-se ao ouvir o som de uma porta batendo no andar superior. Um silêncio estranho e deprimente abateu-se sobre todos os três,  e os envolveu até que o velho casal  levantou-se para dormir. – Espero que o Senhor  encontre o dinheiro enrolado em um  grande saco,  bem no meio da cama –  disse Herbert, ao  dar-lhe boa noite –,   e algo de terrível, agachado em cima do guarda-roupas, o espreite,  enquanto  o senhor embolsa o  seu ganho fácil. Ele permaneceu sentado, sozinho, na escuridão. Observava  o fogo fenecer e via  rostos formando-se nas chamas.  A última cara era tão horrível, tão  simiesca,  que ele a contemplou  com assombro. A imagem era de uma vivacidade tal que Herbert, com um sorriso inquieto, procurou na mesa um copo d’água para jogar sobre ela.   Agarrou a mão do macaco, sentindo um breve calafrio.  Então, limpou a própria mão no casaco e retirou-se para a cama. II Na manhã seguinte, enquanto tomava o café da manhã sob a luz do sol invernal, que pairava sob a mesa, Herbert riu de seus temores. Na sala  havia um ar  de prosaica higidez que faltara na noite anterior. E a mão do macaco, enrugada e suja, atirada negligentemente  sobre o aparador, não inspirava nenhuma grande crença em suas virtudes. – Eu creio que todos os velhos militares são iguais – disse a Sra. White. – Que ideia a nossa,   de dar ouvidos a  estas tolices!  Como se pode acreditar, nos dias de hoje,  em talismãs que nos concedem desejos?   E se  as duzentas lhe  libras forem concedidas,  o que da mau poderá lhe acontecer,  pai? – Será mau se as libras caírem do céu,  bem encima da cabeça dele – disse Herbert, frivolamente. – Segundo Morris, as coisas aconteciam  com tanta naturalidade – disse o pai – que você, se o quisesse, poderia considerar  uma simples coincidência. – Bem, não lance mão do dinheiro antes que eu volte – disse Herbert, ao se levantar da mesa. – Temo que o senhor se transforme em um homem mau e avarento, e nós tenhamos que repudiá-lo. A mãe sorriu,  acompanhou-o até a porta e o viu afastar-se pela estrada.  De volta à mesa, ela parecia divertir-se com a credulidade do marido.  Mas isto não a impediu de correr à porta quando o carteiro bateu,  nem de fazer referência a majores reformados beberrões, quando descobriu  que o correio trouxera apenas a conta do alfaiate. – Com certeza, Herbert fará outra  observação irônica quando voltar – disse ela, quando se sentaram para jantar. – Sem dúvida – disse o Sr. White, servindo-se  de um pouco de cerveja. – Mas, seja como for, a coisa se contorceu na minha mão.  Juro que sim. –  Você imaginou que ela se mexeu – disse a Sra. White, suavemente. – Eu estou dizendo que ela se mexeu  –    o outro replicou. – Quanto a isto, não tenho dúvidas.  Eu tinha acabado...  O que houve? A mulher não respondeu.  Ela estava observando os movimentos misteriosos de um homem do lado de fora que, olhando indeciso para a casa, parecia tentar decidir-se a entrar.  Numa conexão mental com as duzentas libras, ela percebeu que o estranho estava bem vestido e usava um reluzente chapéu de seda novo.  Por três vezes, ele parou no portão e depois retrocedeu.  Na quarta tentativa, pôs a mão sobre ele e, em seguida, com uma súbita resolução, abriu-o e avançou.   No mesmo momento, a Sra. White colocou a mão atrás de si, desatou  apressadamente o avental e colocou esta útil peça do vestuário sob a almofada de sua cadeira. Ela conduziu o estranho – que parecia pouco à vontade – à sala.  Ele a contemplou furtivamente,  e ouviu, com ar preocupado,  a velha senhora desculpar-se pela aparência da sala e pelo casaco do marido, uma vestimenta que ele geralmente reservava ao jardim.   Ela, então, esperou,  tão pacientemente quanto o seu sexo permitia,  que ele abordasse o motivo da visita, mas ele permaneceu, a princípio, enigmaticamente calado. – Eu... Pediram-me que viesse – disse ele finalmente. Abaixou-se e extraiu  um pedaço de algodão da calça. – Eu venho da parte de Maw & Meggins. A velha senhora teve um sobressalto. – Aconteceu alguma coisa? – ela perguntou, ofegante. – Aconteceu alguma coisa a Herbert?  O que foi?  O que foi? O marido se interpôs: – Espere, espere, mãe – disse ele rapidamente.  – Sente-se e não tire conclusões precipitadas.   Certamente, o  senhor  não nos trouxe más notícias, não é mesmo? –  disse o velho, olhando  o outro,  ansiosamente. – Eu sinto muito... – começou o visitante. – Ele está ferido? – interpelou a mãe. O visitante inclinou-se, assentindo. – Gravemente ferido – ele disse em voz baixa. – Mas já não mais  sente  dor. – Oh, graças a Deus! – disse a senhora, apertando as mãos. – Graças a Deus! Graças... Mas estacou  subitamente,  quando  o terrível significado daquela afirmativa  desmoronou sobre ela.  Ela viu a confirmação de seus temores no rosto esquivo do outro. Então prendeu a respiração  e,  voltando-se para o pouco arguto marido, pôs a mão trêmula sobre ele.  Houve um longo silêncio. – Ele foi apanhado pela máquina – disse finalmente o visitante, em voz baixa. – Apanhado pela máquina – repetiu, aturdido, o Sr. White. Ele se sentou, olhando fixamente pela janela e, tomando a mão da mulher entre as suas, apertou-a, como costumava fazer nos tempos de namorados, há cerca de quarenta anos. – Ele era o último filho que nos restava – disse ele, voltando-se para o visitante. – É difícil. O outro tossiu e, levantando-se, caminhou lentamente até a janela. – A empresa me pediu que lhes  transmitisse os  sinceros pêsames pela grande perda – disse ele, sem olhar em volta. – Eu imploro que compreendam que sou apenas um empregado e apenas cumpro ordens. Não houve resposta.  O rosto da senhora estava lívido, os olhos fixos, a respiração inaudível.  No rosto do marido havia um olhar que o seu amigo major poderia ter ostentado em seu primeiro conflito armado. – Quero dizer que a Maw & Meggins se exime de qualquer responsabilidade – prosseguiu o outro. – Eles não admitem qualquer responsabilidade no evento, mas,  em consideração aos serviços prestados por seu filho, pretendem ofertar-lhes uma certa quantia, a título de compensação. O Sr. White largou a mão da mulher e, pondo-se de pé, dirigiu ao visitante um olhar de horror. Seus lábios secos articularam as palavras: – Quanto? – Duzentas libras – foi a resposta. Sem atinar para o grito da esposa, o velho sorriu debilmente, estendeu a mão como um homem cego e caiu desfalecido, como um fardo, no chão. III No imenso cemitério novo,   a uma duas milhas de distância, os velhos sepultaram o seu morto e voltaram para a casa,  mergulhada na sombra e no silêncio.  Tudo acabara tão rapidamente que, a princípio, eles mal se davam conta do que ocorrera. Permaneceram em um estado de expectativa, como se algo mais estivesse por acontecer – algo que lhes aliviasse aquele fardo, pesado demais para os seus velhos corações. Mas os dias se passaram e a expectativa deu lugar à resignação – à resignação sem esperança dos velhos, às vezes tomada erroneamente por apatia.  Algumas vezes eles sequer trocavam uma palavra, pois agora não tinham mais sobre o que conversar, e os dias eram longos e tediosos. Foi cerca de uma semana depois que o velho, acordando subitamente de noite, estendeu a mão e viu que estava sozinho. O quarto estava escuro e o  som de um choro lastimoso vinha da janela.  Ele sentou-se na cama e ficou a escutar. – Volte – disse ele, ternamente. – Você vai sentir frio. –  Está mais frio para o meu filho – disse a senhora, que chorou novamente. Os sons de seus soluços  desvaneceram no ouvido do marido.  A cama estava quente e os seus olhos pesados de sono.  Ele dormitou  intermitentemente e depois caiu no sono,  até ser acordado, com um sobressalto,  pelo  grito selvagem  da mulher. – A mão! – ela chorava descontroladamente. – A mão do macaco! Ele se levantou, alarmado. – Onde?  Onde  está?  O que aconteceu? Ela transpôs, cambaleante, o quarto, achegando-se a ele. – Eu  quero a mão do macaco –  ela disse em voz baixa. – Você  a destruiu? – Ela está na sala de estar, na prateleira – ele respondeu, surpreso. – Por  quê? Ela chorou e riu ao mesmo tempo e, inclinando-se, beijou-lhe o rosto. – Somente agora pensei nisto – disse ela histericamente. –  Por que não pensei nisto antes?  Por que você não pensou nisto antes? – Pensar em quê? – ele inquiriu. – Nos dois outros desejos – ela respondeu rapidamente.  –  Nós só fizemos um pedido. – Não acha que já foi o suficiente? – ele replicou, enraivecido. – Não! – ela gritou, triunfante. – Faremos mais um.  Desça e a pegue logo.  Deseje que o nosso garoto  viva novamente. O homem sentou-se na cama e  afastou os lençóis de  seus membros trêmulos. – Meu Deus, você está louca! – ele gritou, horrorizado. – Pegue-a – disse ela, ofegante.  Pegue-a depressa e faça o pedido... Oh, meu filho, meu filho! O marido riscou um fósforo e acendeu uma vela. – Volte para a cama – disse ele, hesitante.  – Você não sabe o que está dizendo. – Nós tivemos o primeiro desejo satisfeito – disse a senhora, febrilmente. – Por que não o segundo? – Foi só uma coincidência – gaguejou o velho. – Vá buscá-la e faça o pedido – gritou a mulher, tremendo de excitação. O velho virou-se, olhou-se para ela e sua voz tremeu: – Ele está morto há dez dias e, além disso....  eu não queria que você soubesse, mas eu só consegui reconhecê-lo pelas roupas.   Se ele estava terrível demais para que você o visse, imagine como não estará agora. – Traga-o de volta – gritou a velha senhora, e o arrastou até a porta.  – Você acha que tenho medo do filho  que criei? Ele desceu na escuridão e tateou até a sala de estar e, depois,  até a lareira. O talismã estava em seu lugar e um medo horrível de que o desejo ainda não formulado pudesse trazer de volta, em sua presença,  o filho mutilado,  antes que pudesse evadir-se da sala, apoderou-se dele.    Prendeu a respiração ao perceber que havia perdido a direção da porta e, com a testa umedecida  por um suor frio, deu a volta ao redor da mesa,  encontrou a parede e tateou ao longo dela.  Então se viu no corredor estreito com aquela  coisa  hedionda na mão. Mesmo o rosto de sua mulher parecia mudado quando ele entrou no quarto. Estava pálido e ansioso e, para o seu temor, tinha uma aparência anômala. Sentiu medo dela. – Faça o pedido – ela gritou, imperiosamente. – Isto é uma tolice. Uma perversidade – ele disse, hesitante. – Peça – repetiu a mulher. Ele ergueu a mão. – Desejo que o meu filho viva novamente. O talismã  caiu no chão e ele o olhou amedrontado.   Então afundou numa cadeira, trêmulo,  enquanto a velha, com os olhos abrasados, foi até a janela e levantou a persiana. Ele permaneceu sentado até enregelar-se, olhando ocasionalmente para a  figura da mulher que espiava pela janela.  O resto de vela, que ardera até a borda do castiçal de porcelana, lançava sombras pulsantes sobre o teto e as paredes, até que, com um lampejo mais intenso, se apagou.   O velho homem, com uma indescritível  sensação de alívio pelo fracasso do talismã, rastejou de volta à cama, e, um ou dois minutos depois, a velha senhora,  silenciosa e apaticamente,  deitou-se ao  lado. Nenhum dos dois falou. Permaneceram em silêncio, ouvindo o tique-taque do relógio. Um degrau rangeu, um rato correu, ruidosamente, a guinchar, pela parede.  A escuridão era opressiva e, depois de continuar deitado por algum tempo, tomando coragem, o marido tomou uma caixa de fósforos e, acendendo um, desceu as escadas em busca de outra vela. Ao pé da escada o fósforo acabou e ele parou para acender outro.   No mesmo instante, uma batida, tão silenciosa   e furtiva que mal se ouvia, soou na porta da frente. Os fósforos caíram-lhe da mão.  Ele ficou imóvel, com a respiração suspensa, até que a batida se repetiu. Então ele virou e fugiu rapidamente  para o quanto, fechando a porta atrás de si.  Uma terceira batida ressoou pela casa. – O que foi isso? – gritou a senhora, levantando-se. – Um rato – disse o velho, com a voz trêmula.  Um rato.  Ele passou por mim na escada. A mulher sentou-se na cama e ficou escutando.  Outra batida – forte – voltou a ressoar. – É Herbert! – ela gritou.  – É Herbert! Ela correu para a porta, mas o marido se antepôs, e, tomando-a pelo braço, segurou-a firmemente. – O que você vai fazer? – sussurrou ele, com voz rouca. – É meu filho! É Herbert! – ela gritou, lutando maquinalmente.  Eu me esqueci  de que ele estava a duas milhas de distância. Por que você está me segurando?  Solte-me.  Preciso abrir a porta. – Pelo amor de Deus, não o deixe entrar – gritou o velho, tremendo. – Você está com medo de seu próprio filho – ela gritou, debatendo-se. – Largue-me! Estou indo, Herbert!  Estou indo! Houve mais uma batida e mais outra.   A velha, com um súbito empurrão, soltou-se e  saiu, correndo, do quarto. O marido seguiu-a até o patamar e, suplicante, chamou por ela, enquanto a mulher, voando, descia as escadas.   Ele ouviu a corrente chacoalhar e a tranca de baixo  ser deslocada lenta e rigidamente do encaixe.  Então a voz da velha mulher soou, tensa e ofegante: – A tranca – gritou alto.  – Desça.  Eu não consigo puxá-la! Mas o marido estava com as mãos e os joelhos no chão, tateando, procurando desesperadamente a mão do macaco.  Se pelo menos ele conseguisse encontrá-la antes que aquela coisa lá fora entrasse! Batidas sucessivas reverberaram pela casa e ele ouviu o arrastar de uma cadeira quando a mulher a colocou no corredor, de encontro à porta.  Ele ouviu o ranger da tranca ao ser deslocada lentamente e no mesmo instante encontrou a mão do macaco. Desesperadamente, formulou o seu terceiro e último pedido.   As batidas cessaram subitamente, embora os seus ecos ainda ressoassem pela casa. Ele ouviu a cadeira ser arrastada para trás e a porta se abrir.  Um vento frio subiu até a escada e o longo e alto gemido de decepção e tristeza da mulher lhe deu coragem para correr até  ela e, em seguida, até o portão.   O cintilar  do lampião do outro lado da rua alumiava uma estrada calma e deserta.Exercicios Perder Barriga

Fonte: Contos de terror.