Honra do Morto

28/02/2015 13:39

I
Do lado de fora do castelo de Daranbor, os camponeses, temerosos da noite como lhes é particular, já se haviam deitado e buscavam conciliar o sono, pois a labuta retornaria no dia seguinte. Do lado de dentro, porém, mal as luzes do dia haviam diminuído e as velas, archotes e fogos tinham sido acesos e a festa se iniciara, num lauto banquete regado a vinho de boa safra, provido de carnes de caça e de gado criado e embalado por música alegre dos melhores artistas que o Lorde contratara.
Muitos eram os comensais, nas mesas espalhadas pelo salão, convidados de locais distantes, todos nobres ou, no mínimo, riquíssimos burgueses, a celebrar as núpcias do Lorde de Feramund, agora Lorde de Feramund e Daranbor, com Lady Alyne de Daranbor, casamento que, todos diziam, era auspicioso para os dois.
No entanto, o humor dos dois não estava de igual disposição naquela noite. Pois embora a alegria fosse geral e o Lorde compartilhasse dela, a Lady, muito diferente, sorria pouco, e quando o fazia era por cortesia e boas maneiras para com os convidados.
Por vezes uma sombra, ou mais que uma sombra, de tristeza e angústia passava sobre seu belo rosto de donzela.
E a festa transcorria animada, apesar disso, e teria transcorrido por muitas horas mais, não tivesse o visitante chegado.
Ninguém viu quando ele se aproximou do castelo, nem ao menos quando foi que nele adentrou. Mais tarde, os vigias do exterior diriam que em nenhum momento alguém passara por eles, e a sua presença só parece ter sido notada quando ele já se encontrava no salão, em meio a festa.
O primeiro homem com quem ele falou foi um rico e honesto comerciante de vinhos da região, cujos preços gentis naquela ocasião lhe haviam valido o convite para a festa. Era um homem falante e pouco conhecedor das maneiras mais sutis da nobreza, e talvez por isso o visitante o tenha escolhido.
- A noiva não me parece muito alegre – disse, de súbito, a voz do visitante, ao lado dele – sabe o que tem ela?
O comerciante de vinhos olhou pasmo para o dono da voz, pois não sabia que ao seu lado houvesse alguém, afinal, poucos nobres sentariam tão próximos de um plebeu, mesmo que esse fosse rico.
O estranho estava trajando um manto velho e surrado, e parecia-se menos com um nobre que o próprio burguês, e esse manto terminava num capuz cobrindo-lhe o rosto. No seu colo, repousava um cajado feito de um material alvo e semelhante a madeira, mas que parecia, ao mesmo tempo, diferente. Algo nele deixou o burguês pouco a vontade, e por isso mesmo ele nunca não soube explicar porque respondeu com tanta sinceridade a um estranho:
- Ora, meu bom senhor, como ela haveria de estar alegre? Não nutre amor pelo seu esposo, e casou-se com ele por necessidade.
- Pensei que a maioria dos casamentos da nobreza fosse assim. Por que ela reage tão mal?
- No caso dela, é pior. Esteve já prometida a outro homem, ao qual amava, mas este desapareceu de sua vida. Entenda, era a filha única do Lorde de Daranbor, e criada por ele como se fosse um tesouro. Ele não pretendia entregá-la a qualquer um. Foi um cavaleiro altivo e de sangue nobre, chamado Eric de Lestaron, que conquistou seu coração, porém, como a maior parte dos cavaleiros que erra pelo mundo, este Eric também era pobre. Um dos últimos filhos de um grande lorde, pretendia fazer a sua fortuna com as próprias mãos, e o Lorde de Daranbor lhe concedeu o tempo de um ano e um dia para que conquistasse uma fortuna que o colocasse em posição de casar-se com sua filha. No entanto, passado este tempo, ele não retornou. E os dissabores da jovem lady se acumularam. Seu pai morreu, em conseqüência de uma febre, e ela ficou sozinha, sem poder herdar o feudo de seu pai por ser, bem, por ser mulher. Então Feramund, perdão, o Lorde de Feramund, este que você vê ao seu lado, apareceu e disse que ela deveria se casar com ele, para que mantivesse a sua propriedade antes que algum parente distante viesse reclamá-la. Temerosa pelo bem de seu povo, ela consentiu, e os dois se casaram. Dizem as más línguas que ela impôs condições ao noivo, como, por exemplo, somente ela cuidaria dos negócios aqui em Daranbor e nada faltaria aos seus queridos vassalos. Mas Feramund concordou com tudo. Ele era louco por ela, dizem, desde muito jovem, e ela sempre lhe refreou as investidas, ainda mais depois que Eric apareceu, que, ao que dizem, era superior ao nosso anfitrião em tudo, isso quer dizer, força, beleza e... honra, também.
- Entendo. Será que não retornou apenas pela vergonha de não ter acumulado uma fortuna digna de sua pretendida?
- Não creio, meu senhor. Pelo que dizem de Eric, embora eu nunca o tenha visto, é que era impetuoso o suficiente para raptá-la do pai, embora não sem seu consentimento, posto que a amava muito. Mas quis tentar uma forma rápida de enriquecer. Rápida e perigosa. Altalar, o dragão, dorme nos ermos do norte, é o que dizem, e guarda um fabuloso tesouro. O cavaleiro pretendia matar a besta e apossar-se do ouro, é o que dizem. Bem... o que creio que acontece é que querer matar e de fato matar um dragão são coisas diferentes. Seus ossos devem estar no covil do monstro, agora, e é uma pena que...
- Silêncio. Parece que o anfitrião quer falar.
E, de fato, o Lorde de Feramund erguera-se de sua cadeira e tinha sua taça erguida alto, e dizia, em alto e bom tom:
- Meus queridos amigos, eu queria propor mais um brinde agora, festejamos meu casamento e os anos no futuro  parecem alvissareiros, mas queria propor um brinde aos nossos amigos que estão ausentes, que por capricho do destino, não puderam estar presentes nesta celebração. Como o pai de minha amada esposa, o antigo Lorde de Daranbor...
Neste momento, uma voz interrompeu-o. Era o estranho visitante, ainda sem revelar o rosto, erguendo sua taça com a mão esquerda e apoiado no cajado com a direita:
- ... ou Eric de Lestaron, que foi assassinado por uma flecha traiçoeira antes da metade da jornada que lhe traria não apenas fortuna, mas também a felicidade que uma ave de rapina lhe roubou.
E, dito isto, verteu o conteúdo de sua taça no chão.
O Lorde ficou lívido de raiva por um instante, e procurou o autor da voz, gritando em seguida:
- Quem ousa fazer uma afronta destas a minha hospitalidade? O nome de Eric de Lestaron não é bem recebido aqui!
O visitante falou de novo, e com uma voz que carregava ira e altivez e disse:
- O nome da vítima não deve ser agradável ao ouvido do assassino, assim presumo. Pois encontrei os ossos de Eric, não no covil de um dragão, como muitos supõem, mas num bosque qualquer, com isto cravado entre suas omoplatas, uma flecha de teu arsenal, Lorde Margol de Feramund, que para roubar a ele a prometida, sequer teve a honra necessária para desafiá-lo a um combate justo, e o matou à traição, com um tiro de tocaia.
Neste instante, Lady Alyne se levantou também, seu rosto transtornado de tristeza e horror, e seus olhos acompanharam a flecha que o estranho jogou ao chão, e ela gritou, quase em desespero:
- Quem é você? E como sabe destas coisas?
- Tenho meios de saber das coisas, milady. Entretinhas esperanças de que ele ainda vivesse? Lamento informar que eram em vão. E não chorei menos esta perda do que tu vais chorar, pois Eric era meu irmão.
E, dito isto, jogou o capuz para trás. Tanto o Lorde quanto a Lady conheciam bem o rosto de Eric, e lá estava alguém que era quase sua imagem idêntica. Mas, ao mesmo tempo, era diferente. Tinha os cabelos raspados, como um jovem monge, e era magro e de aspecto frágil, apesar da voz potente. Eric fora forte e viril. Ali estava alguém de constituição delicada e olhos mais maliciosos.
Alyne, no entanto, demorou-se no olhar do estranho apenas o suficiente para que seu instinto confirmasse que ele falava a verdade. Depois disso, lágrimas de dor e de ódio correram-lhe pelas faces, e ela dirigiu um olhar mortal para seu esposo. Em seguida, disparou a correr do salão. Margol ergueu aflito a mão em sua direção, mas não soube o que dizer.
O resto dos convidados estava em silêncio. Lentamente, o Lorde de Feramund voltou seu olhar novamente para o estranho e disse:
- Tu vens até aqui, arruínas minha festa de casamento e faz acusações que não tens como provar! Eu sou o senhor de Daranbor agora e farei com que seja enforcado por essa ofensa, não sem antes sofrer as mais terríveis torturas que...
- Não tens direito algum sobre mim, Margol, pois eu sou Simon de Lestaron, sou de sangue nobre e só há uma maneira de um nobre trazer justiça sobre outro que não seja seu vassalo.
Até então desconcertado, Margol agora ria.
- Queres te bater comigo em duelo? Não consegues ver a diferença entre eu e tu?
Agora compreendo as injúrias e a ousadia. És louco! Ou então procuras um jeito de morrer!
- É dito que os deuses não permitem que o falso vença o verdadeiro em duelo. Se o que digo são mentiras, de fato, nada tens a temer.
- Pois bem, meu pobre louco. Farei tua vontade. Cruzaremos espadas tão logo amanhecer, no pátio deste castelo.
- Por que esperar o amanhecer? Tenhamos nossa contenda ainda esta noite, quando for a hora mais escura. Ou não tens coragem suficiente agora?
- Que seja ainda hoje, então! Homem algum pode me derrotar!
O estranho dirigiu-se para os portões do salão, dizendo sem se voltar.
- Eric poderia ter te derrotado, Margol. Quando eu retornar, me reconhecerás pela armadura e espada de meu irmão.
 
II
Tão logo o estranho retirou-se, Margol deixou o salão e foi ter com Alyne, mas esta não pode ser encontrada em nenhum local do castelo. Apenas, no quarto em que os dois deveriam consumar seu casamento, estava uma velha aia, com uma mensagem dela:
- Milady disse que soube da luta que haverá esta noite, e que milorde deve esperar reencontrá-la após isto. Ela disse também não pretende se entregar a um homem sobre o qual pese sombra de culpa. Disse que os deuses favorecerão o verdadeiro, como sempre têm feito, e que, assim sendo, milorde nada deve temer.
A resposta de Margol foi uma bofetada. A criada aceitou o golpe calada e retirou-se.
O Lorde sentou-se, sozinho, na cama, e após algum tempo refletindo, mandou chamar os criados e os ordenou que preparassem fogo e pusessem bancos no pátio, para todos aqueles que ainda estivessem na festa, pois eles veriam sua vitória. Não temia a derrota. Conquistara a mulher que cobiçava, o feudo do pai dela e riqueza maior que qualquer nobre da região. O homem que o desafiara era franzino e desajeitado. E seria bom, já que se chegara àquele ponto, livrar-se daquele evento desagradável perante todos que haviam visto os acontecimentos até então. Bem sabia por que existia aquela ridícula superstição sobre o favorecimento dos deuses numa questão de justiça da espada. 
Assim, os fortes podiam prosseguir fazendo a própria lei.
Alyne, no entanto, estava do lado de fora do castelo, tendo saído sem que ninguém a visse, tão logo a conversa dos adversários, que ela terminara de escutar secretamente, se encerrara. Conhecia os caminhos e passagens do lugar onde crescera e podia adiantar-se a outros, esperava surpreender o estranho quando ele se retirasse para onde quer que estivesse hospedado ou acampado. Estava à beira da estrada, à sombra de uma árvore solitária, e foi surpresa para ela quando o estranho falou às suas costas:
- Milady, não creio que seja hora nem local para alguém como a senhora estar.
Alyne voltou-se, sem medo, e o encarou:
- Entras e sais do castelo de meu pai sem que ninguém veja como.
- E tu me buscas e eu não sei por que.
- As coisas que disseste lá dentro...
- Que tem elas? Sabes que são verdades.
- Mesmo assim, estás sendo insensato. Acha que meu odiado marido poderá ser derrotado por ti? Vim agradecer-te pelas notícias que me trouxeste, embora sejam dolorosas, e dizer que vá embora, eu cuidarei dele.
Havia um ódio frio nos olhos da jovem. O estranho silenciou por alguns momentos e disse:
- Isso não te beneficiaria em nada, milady. Ele poderia morrer, de fato. Uma doença súbita, que ninguém saberia ter sido veneno. Mas o que seria de ti depois? E se alguma suspeita cair sobre ti?
- Já não me importo. Antes que tu chegasses a estas paragens, ainda tinha alguma esperança de que Eric retornaria com o tesouro de Altalar, e que, de alguma maneira, me libertaria desta sina. Mas agora está tudo perdido. Quero apenas vingança.
- Eric era um dos poucos que poderia ter vencido Altalar, e ele não desejaria tua desgraça. Terás tua vingança, e mais do que isso. Agora vá e fique a salvo até a hora do combate. Tenho outros assuntos a tratar, e preciso fazê-lo sozinho. Tua preocupação comigo será recompensada.
Alyne começou a se distanciar. Olhou uma vez para trás e Simon já não estava mais lá.
 
III
No pátio do castelo, havia assento e luz para o duelo que acabara se convertendo em espetáculo naquela noite. A noite estava clara e sem nuvens, e Margol esperava no centro do círculo formado pelos convidados, trajando armadura completa e tendo espada e escudo nas mãos. Alyne demorou-se, mas apareceu depois de todos. Como era costume, havia um lugar mais alto para os anfitriões, e ela postou-se lá sozinha. Não olhou para Margol nem por um instante, ficou apenas a fitar os portões da muralha externa.
Precisamente na metade da noite, ele apareceu.
Trajava a armadura de Eric, e vinha com o elmo fechado sobre o rosto. Tinha também suas armas, e caminhou até o círculo do combate sem dizer palavra.
No entanto, ao encarar o adversário, falou:
- Se tens certeza de tua vitória, Margol, aceita mais este desafio. Proclama que, se fores derrotado, após tua morte, é tua vontade que a Lady de Daranbor seja senhora deste lugar, e que sua palavra seja a lei, mesmo ela sendo mulher, e que teu espírito sem descanso perseguirá quem se opuser a autoridade dela.
Ao ouvir isto, Margol empalideceu. Havia algo errado na voz do estranho. Algo simplesmente terrível.
No entanto, voltou seus olhos para Alyne. Ela estava trêmula de expectativa, parecia ter sido mais atingida pela voz do desafiante do que ele. E ainda assim não olhava para seu marido.
Alyne, a bela, que tudo aquilo causara, que indiretamente o lançara ao assassinato e à traição, mas que ele queria mais ainda que toda a sua riqueza, e decidiu que era uma boa forma de mostrar seu amor por ela, caso ainda restassem dúvidas.
- Que seja como tu disseste, então. Se eu for derrotado, o que não acontecerá, Alyne de Daranbor será senhora deste lugar, como eram as antigas rainhas de quando o mundo era jovem, e ninguém contestará isso. E se eu viver, ela ainda assim será senhora deste lugar, mas protegida por mim de mentirosos, perjuros e caluniadores.
E, dito isto, em tom heróico e vigoroso, avançou em direção ao adversário sem aviso. Este bloqueou seu golpe com o escudo e respondeu rapidamente.
Ambos atracaram-se na luta. Foi feroz e ambos os lados praticamente se igualavam em destreza e força. Mas o escudo do desafiante era de qualidade inferior, posto que Eric fora um cavaleiro mais pobre que Margol, e este se partiu em dois num golpe mais vigoroso do Lorde, que riu satisfeito e desferiu mais um golpe em seguida.
Uma estocada com a ponta aguda da lâmina, que rasgou a cota de malha que havia sobre o ventre do adversário, e o varou de um lado a outro, aparecendo do outro lado de seu corpo.
Margol emitiu um rosnado de triunfo, mas em seguida foi tomado pelo horror. Com a espada atravessada de um lado a outro do seu corpo, o desafiante continuava em pé, e girara o corpo, lhe arrancando a arma da mão. Em seguida, avançou para ele, e, com sua espada, desferiu um golpe descendente. O Lorde defendeu-se como pode com seu escudo, mas a força do golpe fez com que se ajoelhasse no chão. Outro golpe veio, e outro, e mais outro, e o outro escudo também se partiu.
Margol emitiu um grito de pavor, e um último golpe do adversário calou-o para sempre.
O vencedor olhou para Alyne e bradou:
- O senhor destas terras está morto. A senhora vive. Longa vida a ela! Curvem-se ante a senhora de Daranbor!
Sua voz era imperiosa. Todos o obedeceram, ainda pasmos com o fato de ele ignorar o ferimento mortal que recebera. Abandonando as duas armas, a sua e do vencido, no campo, ele se dirigiu aos portões da muralha.
Alyne, porém, não tinha mais dúvidas.
Aquela voz era de Eric. De seu amado Eric, o maior de todos os cavaleiros. Ele estava vivo, e a salvara do terrível destino que se abatera sobre ela. E agora? Por que partia? Por que a abandova? Senhora de terras, como uma rainha de tempos bárbaros, mas sozinha... devia estar ferido por ela ter se casado com outro.
Mas não! Ela não o deixaria ir! Ele ocuparia um lugar a seu lado. Seria o seu consorte, como estivera destinado a ser desde o princípio.
Vencendo sua estupefação, ela correu atrás dele, abrindo caminho entre a multidão de convidados e bajuladores que vinha lhe oferecer seus préstimos, seus pêsames ou felicitações. 
Quando viu, ele já atravessara os portões externos, seu vulto ia pelo campo. Ela ainda assim, agora só, corria atrás dele.
- Eric! Volta!
Ele ainda assim se afastava.
- Por que me abandonas agora? Sei que não és Simon! Volta!
Ele ainda se afastava, mas ela corria, ele ia mais devagar.
Ela já podia ouvir sua voz.
- Não perde teu tempo comigo. És livre e senhora de tuas terras, agora.
- Oh, Eric! Sei que deves querer me censurar... Mas ainda te amo. Mais do que nunca. Fica comigo. Por que não detém tua caminhada?
Ele parou neste instante e voltou-se para ela.
- Por que, por mais que te ame...
Ela o abraçou enquanto ele falava, e retirou-lhe o elmo da cabeça, para beijá-lo.
- ... sou apenas uma sombra do passado.
Com um grito, ela recuou.
Onde deveria estar o belo rosto dono daquela voz, havia apenas a brancura de um crânio humano, com órbitas vazias e mandíbulas descarnadas a moverem-se enquanto a voz saía.
Antes que Alyne pudesse dizer qualquer coisa, uma voz atrás dela entoou palavras, como num cântico:
O mal está corrigido, a inocência foi preservada e a iniqüidade foi punida.
Os portões podem ser atravessados.
A vida segue seu curso.
Descansa, agora, meu irmão.
E os ossos, pois tudo o que havia sob a armadura eram ossos, desabaram nesse momento, numa pilha a luz da lua, no meio do campo.
Não foi surpresa de Alyne, ao se voltar, ver Simon com seu cajado, e uma luz mortiça a emanar dele:
- Bruxo! – disse ela, num ímpeto de raiva.
- Sim, é o que sou. Mas nada do que disse antes era mentira.
Em seguida, se ajoelhou junto ao monte de ossos. Contemplou-os com tristeza.
- E foi bruxaria que fez meu amado retornar como um espectro?
A luz do cajado do bruxo se apagou, e sua voz estava suave e respeitosa, quando ele falou novamente, e pela última vez, com ela:
- Não posso esperar que a Senhora de Daranbor compreenda o caminho do necromante. Sei que criaturas como eu causam repulsa e não mais me verás, depois desta noite. Nunca tive a coragem de meu irmão, e tive que buscar meu próprio tipo de coragem. Apesar da tua tristeza, milady, porém, tens alguns motivos pra te alegrares. Viverás vida longa e teu povo estará a salvo de qualquer aflição enquanto viveres. E, quanto a tua pergunta, posso dizer, com a certeza do dia que virá, que eu mostrei o caminho e isso era tudo o que eu podia fazer. Foi o amor que meu irmão tinha por ti que fez com que ele se levantasse e lutasse uma vez mais.