Gary Ridgway

22/12/2014 13:29

Gary Ridgway tinha prazer em matar, matava bem e se orgulhava disso. Era tão bom, segundo sua própria descrição, que via a trajetória de assassinatos como uma carreira, uma profissão. Escolhia com cuidado, passava horas seguindo as vítimas em potencial e usava um método comprovado: estrangulamento. Tiros ou facadas fariam "muita sujeira". Especializou-se em matar prostitutas, às vezes algumas moradoras de rua, outras, meninas fugidas de casa. Também enganou a polícia repetidamente. Suspeito durante mais de vinte anos da onda de assassinatos que aterrorizou a região de Seattle, no Estado de Washington, na década de 80, ele só foi preso em 2001. Em junho, confessou os crimes – cerca de sessenta mulheres foram tragadas pelo homem que se transformou numa eficiente máquina de matar, mas a polícia conseguiu fechar as investigações de "apenas" 48 vítimas. Ele próprio perdeu a conta exata: "Matei tantas mulheres que é difícil lembrar delas todas". Na semana passada, diante de um juiz, admitiu a culpa em cada um dos casos comprovados. Trocou a confissão pela condenação à prisão perpétua, em lugar da pena de morte, que seria garantida. Tornou-se o assassino em série a ter o maior número de crimes oficialmente creditados a seu prontuário nos Estados Unidos – outros podem ter matado mais, mas nenhum foi levado a julgamento por tantos homicídios.

A abundância de detalhes e a objetividade sem desculpas das declarações de Ridgway, atualmente com 54 anos, pintam um retrato excepcional dos métodos e da mente de um serial killer. "Queria matar o maior número possível de mulheres que achava que eram prostitutas", disse na declaração apresentada ao tribunal. Por quê? "Odeio a maioria das prostitutas e não queria pagá-las para ter sexo." De que maneira? "Esganar era uma coisa que eu fazia muito bem." Ridgway tinha um sistema. Mirava nas garotas mais jovens e menos experientes nos truques da sobrevivência nas ruas. "Preferia as brancas, mas tudo bem se fossem negras. Tanto faz, era tudo lixo", afirmou. Parava a picape, mostrava fotos do filho, prometia arrumar emprego para elas ou se tornar um cliente regular. Levava as vítimas para casa ou fazia sexo na traseira da picape mesmo. Depois, atacava-as por trás, estrangulando-as com uma toalha, uma corda ou o próprio braço. Os corpos eram deixados em matagais, à beira de estradas ou nas águas do Green River, ou Rio Verde. Por causa disso, Ridgway ficou conhecido como "o assassino de Green River".

Ele era meticuloso e se especializou em enganar a polícia. Sabia como os peritos criminais trabalham. Usava luvas e tirava roupa e objetos das mulheres assassinadas. Se tinha sido arranhado, cortava as unhas da vítima. Trocava de pneus caso o carro deixasse rastros. Plantava provas falsas, como bitucas de cigarro e folhetos de motéis. "De certa forma eu tinha orgulho por não ter sido pego", reconheceu Ridgway, depois de detido. Seu melhor disfarce era a aparência banal. Ninguém prestava muita atenção no sujeito sem graça, que trabalhou como pintor numa fábrica de caminhões por mais de trinta anos. Foi casado três vezes, teve um filho e muitas namoradas. Parou de matar depois do terceiro casamento, em 1985, embora tenha tido algumas "recaídas" – o último crime confirmado foi em 1998.

O que faz um serial killer? Matar em grande quantidade, e até ter prazer nisso, não basta. Pistoleiros de aluguel, latrocidas reincidentes ou malucos que de repente saem atirando em todo mundo não se enquadram na categoria. O assassino em série é um psicopata movido por compulsões abissais, em geral provenientes de relações terrivelmente deturpadas na infância. Gostam de trucidar, retalhar. O componente sexual está sempre presente. Não raro praticam canibalismo. Os que atacam mulheres costumam transferir para as vítimas o ódio à própria mãe. A mutilação genital, freqüente nesses casos, é interpretada por especialistas como um desejo de destruir a fonte geradora do poder materno. Nesse sentido, Gary Ridgway é um serial killer clássico. Entrevistado por psicólogos da polícia, ele contou que desde a adolescência tinha vontade de esfaquear a mãe, por quem nutria atração sexual e sentimentos que oscilavam entre "o desejo e a humilhação". Guarda "lembranças vívidas" da mãe lavando-o depois de urinar na cama – o que fez até os 13 anos. Depois, alimentou fantasias derivativas: queria tomar banho com prostitutas.

Alguns dos corpos das garotas e mulheres assassinadas por Ridgway tinham mutilações e sinais de "rituais" macabros. Gostava de deixar os cadáveres em grupos, perto de lugares aonde pudesse voltar com facilidade, numa espécie de ronda. Certa vez, largou o filho dormindo na picape, desceu e fez sexo com um corpo. Ridgway era suspeito dos crimes desde 1983. Um ano depois foi detido, mas passou num teste no detector de mentiras. Em 1987, a polícia deu uma batida na casa dele. Nada de provas – mas levaram uma amostra de saliva. Só em 2001, quando a polícia de Seattle reabriu as investigações, um tipo mais avançado de exame de DNA confirmou: a saliva combinava com o esperma encontrado nos corpos de três das primeiras vítimas. Alguns dos investigadores choraram; o caso do assassino do Rio Verde estava resolvido. A um dos psicólogos, que perguntou se se considerava doente, Ridgway disse: "Não sei se era doença ou se, sei lá, eu só queria matar".

Fonte: Veja.com