É possível criar o Parque dos Dinossauros?

06/09/2014 16:11

Jurassic Park, o Parque dos Dinossauros. Dirigido por Steven Spielberg, o longa chegou às telonas dos EUA em11 de junho de 1993 e conquistou diversos públicos, crianças e adultos, em uma aventura de tirar o fôlego. E passado duas décadas de seu lançamento e com o desenvolvimento tecnológico e científico cada vez mais latente no mundo moderno, surgiu uma dúvida pertinente. Afinal, seria possível, hoje, criar o parque dos dinossauros?

 

Para responder esta questão fomos atrás de um profissional gabaritado e que pudesse nos ajudar a descobrir se a ciência está prestes ou não a ressuscitar estas “extintas” criaturas pré-históricas.Pedro Cordeiro Estrela, que é Professor adjunto do Departamento de Sistemática e Ecologia da UFPB e Doutor em Biodiversidade pela Universidade de Paris VI , aceitou esta missão e tirou nossas dúvidas. Confira abaixo como foi nosso bate-papo e descubra se, além do 3D, estamos próximos de ver, bem de pertinho, um Tiranossauro Rex.

 

No primeiro filme do Parque dos Dinossauros explica-se toda uma teoria sobre como os cientistas conseguiram trazer à vida os dinossauros. Por exemplo, o DNA das criaturas pré-históricas foi encontrado em um mosquito fossilizado pela seiva da árvore. Analisando o tempo que se passou desde aextinção dos dinossauros, seria possível encontrar um DNA preservado para realizar a clonagem?

Pedro: Tecnicamente falando, os dinossauros não se extinguiram. Um grupo de dinossauros chamados de Theropoda sobreviveu a extinção. As aves e outros dinossauros extintos que foram popularizados pelo filme Jurassic Park como o Tyranossaurus rex ou o Velociraptor, fazem parte deste grupo de dinossauros chamados de Theropoda! Ou seja, as aves são dinossauros! Quem tiver mais interesse pode navegar no site Tree Of Life ou Árvore da Vida emportuguês para entender melhor.

Se pensarmos se é possível trazer um Tyranossaurus Rex de volta à vida,então precisaríamos de um DNA que tivesse sido conservado por pelo menos 65 milhões de anos. Porém, o DNA extraído mais antigo que conhecemos tem entre 450.000 e 800.000 anos (muito menos tempo, não é?) e foi extraído de plantas e insetos conservados debaixo do gelo por este período. Em 1994 um grupo de cientistas americanos publicou um artigo dizendo que tinham conseguido extrair DNA de um fragmento de osso de 80 milhões de anos. Como tudo em ciência é sujeito à verificação, análises mais aprofundadas viram que este DNA não tinha 80 milhões de ano e que era o que chamamos de uma contaminação, ou seja, DNA de organismos atuais. Vários grupos estão estudando como o DNA se degrada ao longo do tempo, e se existem condições nas quais este DNA pode ficar preservado.


Acredita-se, com base nestes estudos, que dificilmente se encontrará DNA muito antigo (de milhões de anos). Porém com o avanço da compreensão de como o DNA se degrada e com o avanço de técnicas de sequenciamento talvez possamos um dia recuperar sequências mais antigas. A ciência é sempre uma caixa de surpresas!

 

 

Colocando aqui a hipótese de que o DNA fosse realmente encontrado, alguns cientistas alegam que o mesmo não estaria completo, apresentando lacunas - no filme eles resolvem este problema usando o DNA de outras espécies, precisamente de uma rã. No mundo real quais as chances de um procedimento desses dar certo?

Pedro: Realmente é pouco provável que se consiga DNA de qualidade suficiente para sequenciar o genoma de um Tyranossaurus rex e depois cloná-lo. Cientistas conseguiram sequenciar o genoma de um mamute, uma espécie extinta a 10.000 anos atrás - pouquíssimo tempo em relação aos 65 milhões de anos do T. rex. Existem algumas possibilidades, técnicas que, em teoria, poderiam funcionar, porém nosso conhecimento sobre o genoma é muito pequeno e dilemas éticos tornam esta possibilidade muito pouco provável. Caso fosse possível, uma rãseria com certeza uma péssima escolha já que somos (humanos) mais próximos dos dinossauros do que as rãs, que são anfíbios!


No filme o personagem do ator Jeff Goldblum, Dr. Ian Malcolm, é um matemático que confronta a clonagem dos dinossauros usando a teoria do caos e explica que não há como controlar a natureza. Como profissional da área de Biodiversidade o que senhor acha se houvesse sucesso na clonagem dos dinossauros, como seria esta adaptação? O tal controle discutido no filme seria possível ou não?

Pedro: A natureza é um sistema muito complexo. Atualmente estamos começando a ter uma noção desta complexidade. Qualquer um entende que num ecossistema as espécies dependem umas das outras e que às vezes pequenos desequilíbrios podem ter consequências desastrosas. Esta complexidade existe em vários níveis. O do ecossistema é um nível amplo. Existe também uma grande complexidade em nível molecular, genômico e celular. Então de certa forma, se somarmos todos estes níveis de complexidade, não temos como prever o que aconteceria se inseríssemos dinossauros extintos nos ecossistemas atuais. Para dar um exemplo simples de desequilíbrios causados pela inserção de espécies que não pertencem a um ecossistema, ninguém previa que a introduçãodos caramujos gigantes africanos se tornaria uma praga agrícola em nível nacional!

Ao mesmo tempo, o homem domesticou muitas espécies animais e vegetais e continua modificando estas espécies por meio de técnicas de seleção artificial. O aumento de produtividade de animais de corte, de plantas, o desenvolvimento de culturas com resistência a pragas, são provas de que é possível controlar alguns aspectos da natureza.

 



Analisando a questão do habitat natural dos dinossauros, qual seria o local ideal em nosso planeta, que fosse compatível com o estilo de vida destes animais, e que pudesse abrigar o “parque dos dinossauros”?

Pedro: Existem muitas espécies de dinossauros extintos, cada qual com sua ecologia. Se pensarmos nos dinossauros viventes, as aves, existem em torno de 10.000 espécies que são muito diversas e que vão do urubu ao sabiá, passando pelos pinguins, emas e patos.



Se uma vez fosse constatado que a clonagem dos dinossauros é possível, qual seria a sua opinião, o senhor concordaria ou não?

Pedro: Eu provavelmente não concordaria, pois a ideia de "ressuscitar" espécies não me parece um processo evolutivo natural. Temos muito trabalho para conseguir salvar as espécies que estão em risco de extinção, para coibir o tráfico de animais silvestres, reintroduzir a fauna em lugares onde ela desapareceu e descobrir as espécies que ainda não foram descritas pela ciência. Nós estimamos, por exemplo, que 90% das espécies ainda não foram descritas, o que daria mais ou menos uns 160 milhões de espécies a serem descobertas. A ideia de se clonar espécies extintas tem sido debatida no meio científico. Além do lado científico, existem dilemas éticos e religiosos que devem ser avaliados pela sociedade.    

Fonte : Fique Ligado