Contos de terror: Estranha companhia

20/02/2015 01:36

“Essa história é puramente fictícia e não é baseada em nenhum fato real bem como os nomes de locais e de pessoas e os fatos a partir delas decorrentes. Portanto, qualquer semelhança com algum caso real é mera coincidência.”

ESTRANHA COMPANHIA

parque
Dona Rosa: – Eu gostaria muito de falar com o delegado, por favor.
Policial: – É alguma queixa?
Dona Rosa: -Eu tenho uma revelação muito séria pra fazer.
- delegado chega daqui a menos de 1 hora. Do que se trata essa revelação?
- sobre o desaparecimento de uma criança, faz muito tempo… [diz a mulher enquanto segura entre seus braços um pequeno livro em cuja capa se lia o título “O Inocente Caminho para Morte”].

Chovia bastante naquela noite de 11 de outubro de 1991. Mas tudo parecia estar na mais perfeita ordem. Sobre Colina Alta pairava uma calma que reforçava seus ares de cidade pacata. Até que na delegacia local surge uma mulher chamada Rosa Maria Paiva, uma empregada doméstica disposta a fazer uma revelação tão forte que levaria abaixo todas as conclusões de um processo criminal aparentemente perfeito e reabriria, assim, as investigações do caso da menina Daniela Soares, uma criança de sete anos de idade que desparecera em um parque de diversões quarenta e dois anos antes do depoimento de Rosa.

O caso da menina Daniela era dado como solucionado até então. Já havia sido julgado pela justiça brasileira e a professora da menina, Cláudia Alencar das Neves, tinha sido acusada e sentenciada a 38 anos de prisão em regime fechado pelo rapto, assassinato e ocultação do cadáver de Daniela Soares.
Cláudia jamais confessou o crime, morreu na prisão após cumprir quinze anos da pena sempre alegando inocência. O corpo da criança também nunca foi encontrado. O que Rosa Maria diria à polícia naquela noite, no entanto, traria à tona a verdade sobre um crime macabro, uma trama diabólica enterrada no tempo e encoberta por falhas da polícia e do Poder Judiciário, disputas políticas e corrupção.

Após colher o depoimento de Dona Rosa, o delegado Aroldo Villas Boas faz uma breve saída da delegacia e ao retornar aparentemente atormentado ele imediatamente envia um ofício à justiça e em seguida liga para o investigador e amigo de longa data Almir Tavares Moreira, convidando-o para participar do caso.

[Por telefone]

Almir: -Tá pensando mesmo em revirar esse caso? Já faz tanto tempo, esse crime já prescreveu.
Aroldo: – Fiquei muito intrigado com o que essa mulher me falou. Preciso investigar isso mais a fundo.
- Não sei se vale a pena. Esse caso já foi investigado e julgado, a acusada já morreu…
- A família da vítima que até hoje não obteve uma resposta sobre o paradeiro da garota? Fora a indenização que o Estado seria obrigado a pagar para a família da acusada, se ela for realmente inocente. Você me conhece há anos, sabe que eu não sou de ficar de braços cruzados diante de tamanha injustiça.

- Desculpa Aroldo, mas antes de me aceitar no caso quero que você saiba que eu não levo muita fé nessa história, não. Tá muito na cara que foi aquela professora quem sumiu com a criança. Ainda acho que a culpada foi ela mesmo.
- Não passa nem um pouco pela sua cabeça que essa mulher pode ter sido vítima de uma conspiração muito bem sucedida a troco de interesses políticos? Eu penso nisso e sinceramente acho que este caso merece ser reinvestigado.
- Ok, você tá certo. Na verdade eu também fiquei pensando: que prova nós temos de que realmente Daniela Soares está morta?
Nesse momento, uma série de indagações ronda a mente de Almir: “estaria Aroldo realmente seguindo a pista certa? Será que o caso Daniela nunca foi de fato desvendado pela polícia? Ou seria só especulação? Será que a professora Cláudia foi realmente culpada por aquele crime? E se não foi?” Ao pôr as mãos nas páginas do inquérito, ele fazia uma viagem de volta ao ano de 1949, quando o crime ocorreu.

A cidade de Colina Alta tinha pouco mais de cinquenta mil habitantes, mesmo sendo economicamente desenvolvida. E era num pequeno bairro próximo à praça central que vivia Daniela, uma criança adorável que como qualquer outra gostava de brincar com as outras crianças da sua rua. Muito aplicada, sempre tirava boas notas na escola e era muito querida por toda vizinhança.

Ela era filha única do casal Maria Lúcia de Oliveira e Reginaldo Soares da Silva. Os dois haviam se casado assim que Maria Lúcia engravidou. Mudaram-se para Colina Nova por conta do trabalho de Reginaldo, onde criaram Daniela cercada de muito carinho e atenção.

Era fim de tarde do dia 28 de julho daquele ano quando o Parque de Diversões São Jorge ligava os brinquedos e acendia as luzes em sua última noite de funcionamento na cidade. Logo aquele local de divertimento e lazer se tornaria palco de um crime revoltante. Depois de chegarem ao parque, Maria Lúcia e Reginaldo se separam. Ele leva o sobrinho Júlio, de 10 anos, para um passeio de roda-gigante.

Enquanto Maria Lúcia e a filha compram ingressos para o carrossel. Havia muita gente no local, todos queriam aproveitar o ultimo dia de parque. Depois de deixar a filha no brinquedo, a mãe de Daniela aproveita para comprar pipocas e se afasta por alguns instantes. A fila no pipoqueiro estava grande e enquanto esperava, Reginaldo e sobrinho acenavam para ela da roda-gigante.
Mas ao olhar pra trás percebeu de longe que o carrossel tinha parado e os pais já estavam retirando os filhos do brinquedo. Ela desiste da pipoca e volta para buscar a filha. Conforme vai se aproximando, outras crianças já começam a ocupar os acentos do brinquedo e Maria Lúcia percebe que a filha não está mais no carrossel. Preocupada, ela pergunta pela menina ao funcionário que controlava o brinquedo.

Ele afirma que todas as crianças haviam sido retiradas por um adulto, pois o brinquedo era alto demais para uma criança como Daniela descer sozinha. Em desespero, Maria Lúcia grita por um policial que por ali passava e imediatamente faz-se um cerco ao redor do parque impedindo que qualquer um saísse.

Isso porque atrás do terreno onde o parque estava instalado ficava um posto policial, o que permitiu uma ação rápida, porém não muito eficaz. Todas as pessoas no parque se apavoram, ninguém sabe onde está Daniela e com quem está. Ninguém viu nada. Num lugar cheio de crianças acompanhadas por adultos, era inútil perguntar se alguém tinha visto Daniela sendo levada.

Mas os policiais estavam certos de que o sequestrador ainda estava no parque, uma vez que após o rapto o cerco montado foi imediato e seria muito difícil, segundo eles, alguém conseguir sair correndo tão rápido do parque com uma criança sem ser percebido.

No pátio do estacionamento do parque a polícia impede a saída de todos os veículos até que sejam revistados. No entanto, é permitida a saída do carro da filha do prefeito, Cláudia Alencar das Neves, que, acima de qualquer suspeita até então, alegava que sentia um forte mal estar e precisava tomar medicamentos em sua casa. Em seu julgamento, Cláudia afirmou que gostava de ir sozinha ao parque para ver seus alunos se divertirem.

O promotor responsável pela acusação que convencera os jurados a condenar a professora era primo do Coronel Álvares Gouvêa, principal oponente político e inimigo pessoal do então prefeito de Colina Nova, Dr. Dionísio Alencar. Reginaldo e Maria Lúcia viviam num casamento feliz, sem brigas nem discussões. Quando se conheceram, Reginaldo era um técnico bancário que tinha um namoro secreto com Cláudia, uma estudante de dezesseis anos, e Maria Lúcia uma jovem que tinha acabado de perder o primeiro marido.

Depois que conheceu Maria Lúcia, Reginaldo se apaixonou e terminou seu relacionamento com Cláudia, que desolada partiu para a capital onde terminara os estudos. Ao retornar para Colina Alta, Cláudia passou a trabalhar em uma escola particular onde se tornou professora de Daniela.

Profissão da qual ela não abria mão, mesmo tendo uma boa condição social. Mas ela não parecia nada conformada com o fim do romance com Reginaldo e ultimamente passara a deixar cartas constantemente no seu local de trabalho, ora com declarações de amor, ora com declarações de ódio. Cartas estas mais tarde usadas como provas no processo da possível motivação para o crime. Maria Lúcia não desconfiava de nada, sequer sabia do antigo envolvimento do marido com a professora da filha.

Os dias do parque São Jorge naquela cidade terminavam de maneira trágica. Uma mãe em prantos sem entender o que aconteceu com a filha e um pai desesperado diante de uma tragédia onde ele não sabe o que fazer. Aquela família estaria destroçada para sempre.

Estariam condenados a passar o resto de seus dias amargurando a dor da perda de Daniela. 

Reginaldo e Maria Lúcia jamais se conformaram com a falta de respostas para o paradeiro da criança, ao passo que Cláudia, a acusada, se negava a confessar um crime que ela alegava nunca ter cometido. Uma peça desse quebra-cabeça parecia não encaixar. De fato, coisas estranhas se escondiam detrás dessa história, coisas que pareciam estar destinadas a se mostrarem um dia.

Um fotógrafo chamado Augusto Saldanha havia tirado várias fotos do parque na mesma noite em que Daniela sumira. Algumas delas ele publicou no jornal local onde trabalhava e, como haviam sido tiradas antes do ocorrido, foram usadas pela polícia durante as investigações. As fotos, entretanto, mostravam nada mais que pessoas qualquer passeando entre os brinquedos e se divertindo naturalmente. Nenhuma evidência do crime pôde ser encontrada nelas nem nada de suspeito foi observado.

Foi então que em 1989, após a morte de Augusto, as 9 fotografias do cenário do crime se tornaram públicas e um escritor decidiu anexá-las em seu novo livro, que abordava o caso Daniela. O livro tinha a intenção de criar uma lenda, mostrar o carrossel do extinto parque São Jorge como um brinquedo “amaldiçoado”.
Isso porque muito antes do desaparecimento da menina, houvera um relato de uma criança que tinha morrido ao cair do carrossel e quebrar o pescoço, devido à altura inadequada do brinquedo.

parque 2

- Dona Maria, chegou uma correspondência pra senhora aqui. Eu acho que é um livro. – diz Rosa enquanto caminha em direção ao quarto da patroa.
- Deixa aí na cama.
[2 anos depois]

Aroldo: – Então a senhora acredita que a Dona Maria Lúcia morreu devido a um susto?
Rosa: – Eu acredito sim, doutor. Ela começou a esmorecer, sabe? Vivia triste, confusa, se assustava com qualquer coisa. Dona Maria era uma mulher muito esperta, doutor, muito cheia de vida.

Aroldo: – Derrames são comuns em pessoas com mais de 70 anos.
Rosa: – Mas ela não era de ter essas coisas, não. Foi mesmo depois desse dia que ela começou a ficar assim. Enquanto trabalhava na cozinha, Rosa ouviu um grito do quarto de Maria Lúcia e, depois de correr para lá, ela se deparou com a idosa em pânico. Ela esboçava um olhar apavorado e, apontando com o dedo em direção ao livro estirado no chão, dizia o seguinte: “ Esse homem estava morto, meu Deus!

Eu vi ele sendo enterrado, eu vi, como é possível? Antônio…”. Ao olhar para uma das fotos que ilustravam o livro, Maria Lúcia teve uma surpresa que a atormentaria para sempre. Ali, no meio das pessoas, estava Antônio Batista, seu falecido marido.
Aroldo: – Por que Maria Lúcia não procurou a polícia?
Rosa: – Eu não sei. Ela andava muito estranha, não era mais a mesma. Mal falava, mal comia. Uma vez eu levantei no meio da noite e ela estava lá, de pé na janela, parada olhando pro nada, eu falava com ela e só o que ela me dizia era que ele tinha voltado do inferno pra levar a filha dela com ele.

Aroldo: – O que os familiares dela acharam disso?

Rosa: – Quando eu fui à casa da sobrinha dela, a dona Nair, ela me disse que era coisa da cabeça dela, que era o trauma que tinha voltado por causa desse livro. Mas os parentes dela de hoje nenhum chegaram a conhecer o tal falecido, nem foto dele que eu saiba existe por aí.
[Mais tarde, por telefone]

Aroldo: – Consegui um foto do sujeito nos arquivos do cartório. Eu posso apostar que é ele mesmo que aparece no livro, mas a foto está um pouco danificada. De qualquer forma não dá pra ter certeza, pode ser que seja só uma confusão.
[…]

Almir: – Ok, você tá certo. Na verdade eu também fiquei pensando: que prova nós temos de que realmente Daniela Soares está morta?
Aroldo: – A autorização pra exumação do corpo de Antônio pode sair amanhã mesmo. Dependendo do que estiver dentro daquele caixão, talvez nós estejamos diante de grave erro judicial que custou a vida de uma inocente.

Fonte: Minilua