Contos de terror: A sala

02/02/2015 01:00

Já faz um tempo que estou aqui, um lugar estranho e que tenho certeza de nunca ter conhecido. Não lembro de muita coisa, apenas que quando me dei por si estava no meio dessa escuridão sem fim. Não gosto daqui, e em maior parte é porque não sei o que acontecerá comigo. Tento não pensar muito nisso, mas é inevitável.

Não sei o que me trouxe, e se querem algo de mim. Na minha cabeça tento formar teorias e me forçar a lembrar de algo. Se tivessem me sequestrado acho que estaria preso a correntes e amordaçado, e não sentado em uma cadeira como agora. Mas o que poderia ser?

Acabo me forçando a tentar achar outro tipo de resposta. Não há como ver muita coisa. A única luz existente é vinda de pequenas frestas nas janelas da parede oposta a que me encontro. Não sou tipo que tem medo de escuro ou coisas assim. O que eu temo é essa incerteza, e de não saber o que está acontecendo neste exato momento.

Não estou desesperado, não agora. Acho que estou mais para apreensivo. Acabo sentido uma presença oculta, como se alguém estivesse me observando. Não consigo saber de onde. Esse alguém se esconde através do escuro, mas tenho certeza de que não estou sozinho. Esta tudo silencioso, nenhum ruído é perceptível.

A espera me da agonia. Sinto certo medo de quem pode ser, mas no fundo, fico aliviado por não estar sozinho. Começo a escutar alguns sussurros e vozes. No inicio são poucos e distantes, mas com o tempo vão aumentando e chegando mais perto. E então não sinto uma, mas várias presenças ao meu redor. Isso me incomoda, é como se estivessem me cercando e espreitando. As vozes vão ficando mais altas e se intensificando até se tornarem insuportáveis.

Fecho os olhos e tampo os ouvidos, tentando assim desviar minha mente a algum outro lugar, mas não consigo. Minhas memórias estão vagas demais e não dá para formar nada compreensivo.
Resolvo encarar o que quer que esteja aqui. Abro os olhos de vagar e encontro várias pessoas ao meu redor. Elas também estão sentadas em cadeiras.

Dirigem olhares vazios e inexpressíveis para mim. Seus rostos demonstram expressões de medo, tristeza e sofrimento. Algumas trocam sussurros umas com as outras e o resto apenas ficam observando ao seu redor. Mesmo amedrontadas como eu, parecem saber de algo que não sei. Nada disso faz sentido para mim.

Ao vê-las, me atinge uma sensação de que devo esperar alguma coisa acontecer e que escolhi  vir para cá. Também não consigo compreender isso. Meus pensamentos são interrompidos pelo barulho de uma porta se abrindo. Com um certo esforço acho uma porta que não parecia estar ali antes, no fim do corredor.

Ela se abre por completo e de lá sai uma criatura horrenda e toda negra. O rosto desfigurado mostra uma expressão de fúria e superioridade. Encara-nos com uma fome selvagem e parece estar procurando pelo nosso medo. O seu corpo alto e forte parece mais assustador a cada instante. Seu olhar passa de pessoa em pessoa até se focar em mim.

Começo a suar frio. Sua boca se abre e um odor forte toma conta da sala, com sua voz forte e profunda chama o meu nome, de que alguma forma ela sabe. Meus músculos se contraem e eu fico imóvel na cadeira. Nenhuma silaba sai de minha boca. O monstro chama o meu nome de novo e eu não consigo me mexer. Aquilo vem em minha direção com rapidez. Fico apavorado.

No último instante tomo coragem e me levanto. Vendo que estou de pé, a criatura se vira e começa a voltar para onde estava como se quisesse que eu a seguisse. Como sei que não tenho chances de fugir, decido obedecer. Reparo nos olhares piedosos que as outras pessoas me lançam e respiro fundo. Preciso ter coragem para encarar o que esta por vir.

O monstro me leva até a porta da sala da qual ela saiu e me ordena para que eu entre. Sem protestar e com uma angustia no peito, entro lentamente. Aquilo fecha a porta atrás de mim, ficando do lado de fora.

Agora me encontro em uma sala totalmente escura que me impede de ver um detalhe sequer. Meu coração começa a acelerar. Fico parado sem saber o que vai acontecer e uma sensação ruim me atinge. O silêncio nunca me pareceu tão amedrontador. Finalmente escuto um som.

Algo se mexe nas sombras e uma vela é acesa, iluminando grande parte do ambiente. Percebo que no canto da sala há um homem. Ele está de costas para mim e na sua frente há uma mesa. Com espanto vejo que estão dispostas na mesa várias ferramentas de construção e de jardinagem. Ele examina com cuidado cada uma delas.

Reparo que no centro do lugar há uma enorme cadeira, parecida com a que usam para executar prisioneiros. O pânico começa a tomar conta de mim. O homem termina o que estava fazendo e se vira para mim. Ele é alto, parece assustador e sorri de um jeito sádico. Algo nele o faz parecer maluco. Ele se aproxima de mim lentamente e eu tremo de medo. Traz na mão uma seringa com um liquido escuro.

Nesse momento eu escuto uma batida na porta. Ele vai até ela, fala brevemente com alguém e se vira novamente para mim. Quando o maluco fica a poucos passos de distância eu tento correr dele. Vou até a porta, mas está trancada. Então procuro outra saída, nada. O estranho começa a rir e antes que eu tente fazer outra coisa ele agarra o meu braço. Ele é forte e eu não consigo escapar.

O psicopata me força a sentar na cadeira e me amarra nela com fortes correntes de aço. Começa a rir novamente o que me faz ficar desesperado. Vejo uma expressão de pura satisfação em seu rosto ao perceber que estou com medo. Ele aproxima a seringa de mim. Quando ela é injetada na minha pele, sinto uma dor que parece me rasgar e queimar por dentro. Ele ri agora descontroladamente e lágrimas escorrem dos meus olhos. Começo a sentir uma dormência em meu corpo e então, desmaio…
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Depois de um tempo, ele diz:
– Pronto, acabamos por hoje.
– Já?
– Sim. Não era muito grave, mas volte daqui a uma semana. É só para conferir se estará tudo bem.
– Obrigado.

Então saio com um enorme sorriso do consultório do dentista.

Fonte: Minilua