Contos de terror: Extinção

12/02/2015 01:26

Desde a grande guerra que destruiu o mundo como conhecíamos, os poucos sobreviventes se escondiam em cavernas, abrigos subterrâneos e qualquer buraco que nos oferecesse proteção contra a radioatividade. Já haviam se passado quatro gerações desde que o homem se escondeu do mal que ele mesmo havia criado.

Eu nasci em um abrigo subterrâneo localizado ao sul da antiga Inglaterra, onde existiam cerca de 800 pessoas. Era um abrigo grande, com centenas de túneis e câmaras onde eram divididas as castas.

Apesar de a ganância e a sede de poder ter levado o homem a beira da extinção, ainda existiam muitos conflitos entre os nossos, chegando a causar diversas mortes ao longo desses anos. Porém algo pior estava para acontecer: todos os mantimentos, água e energia estavam se esgotando e a situação estava saindo do controle dos Anfitriões.

Os Anfitriões era o que mais se aproximava de um governo dentro daquela prisão claustrofóbica que a raça humana vivia naqueles dias. Descendentes dos homens que construíram aquele lugar, os Anfitriões eram os lideres que organizavam a pseudo-sociedade que vivia ali.

Em uma noite, uma das últimas que me lembro no abrigo, ouviu-se um grande rebuliço na câmara central. Dois dos anfitriões estavam em uma discussão calorosa e agressiva. Não demorou muito para que o salão estivesse cheio e muitos se perguntavam o que estava acontecendo. Um grande tumulto tomava conta dos túneis e eu não entendia o que estava acontecendo.

Fui em direção ao centro do salão e percebi o corpo de Jillian, a única Anfitriã, nos pés dos dois. Algo muito ruim estava acontecendo. Ambos gritavam muito e o desespero estava tomando conta do ambiente. Jillian era uma mulher bondosa e rígida, lutando sempre pelos mais fracos na colônia.

– Por que alguém iria feri-la?

O alarme de toque de recolher começa a tocar o que causa um tumulto maior ainda. Todos corriam em direção a suas câmaras com medo do que pode estar acontecendo. Fui na direção oposta das câmaras residenciais, precisava entender o que estava acontecendo. Procurei por Davie, além de um grande amigo ele trabalhava com Jillian. Talvez ele pudesse me explicar o que estava acontecendo. Ao chegar na ala oeste do abrigo sinto um odor muito ácido, mas não os que estávamos acostumados, era algo diferente, algo de fora…

Aquele lado estava vazio e escuro e o cheiro cada vez mais forte, chegando a entorpecer meus sentidos. Não estava conseguindo mais controlar meus movimentos. Cada passo era uma tonelada de metal que tentava arrastar.

– O que era aquilo? O que estava acontecendo?

Alguns passo depois senti o peso do meu corpo indo ao chão, manter os olhos abertos era uma luta constante, já não conseguia enxergar nada além do escuro e do claro e depois o silêncio. Aquele silêncio chegava a ser ensurdecedor. Nunca tinha ouvido aquele lugar tão quieto. Depois apenas escuridão…

Senti minha consciência voltando aos poucos, as luzes, os sons e o cheiro. Aquele cheiro estava cada vez mais forte. Ouço alguém chamando meu nome e ao conseguir focalizar, vejo Davie sentado ao meu lado chorando. Ele estava com as roupas de sempre, mas algo estava diferente. Seus olhos, sim seus olhos, estavam em um frenesi, movimentando-os de um lado ao outro, como perdido em meio à loucura.

– Davie? Oque está acontecendo?-Perguntei tentando me levantar. As lágrimas apenas rolavam de seu rosto e ele balbuciava palavras ininteligíveis. -Davie preciso que se acalme e me diga o que está acontecendo.

– A morte veio do céu… Estão todos mortos! Nós viemos até aqui para morrer, nós vamos morrer como nossos ancestrais, vamos morrer como nossos pais!

DSCF1344

Seu olhar havia fixado em algum ponto que não conseguia enxergar. Tentei forçar a vista e só ai percebi que estávamos fora do abrigo. Era muito escuro e difícil de respirar aqui, o ar estava denso e frio, chegava a queimar cada vez que inspirava o ar para dentro de meus pulmões. Mais uma vez olhei na direção que Davie olhava, minha vista havia se acostumado um pouco com a escuridão, então pude ver.

Era uma sombra próximo a nós dois, assemelhava-se a um homem, porém senti uma atmosfera mórbida ao fitá-lo. Ele nos observava ali, de longe, sem se mover, silenciosamente. Não sei o que era aquilo, mas certamente não era humano.

Puxei Davie pelo braço, precisávamos sair dali, e fui em direção à entrada do abrigo. Davie começa a gritar insanamente e o medo começou me dominar. O empurrei para dentro, me jogando logo em seguida para dentro com uma destreza que nunca tinha tido. Levei Davie até a câmara mais próxima dali e fui procurar por outros sobreviventes. Procurei em todas as alas, todas as câmaras, corredores, salas. Ninguém! Todos haviam simplesmente desaparecido.

Fui ao armazém buscar água e alimento e quando retorno Davie está desmaiado, mas ainda vivo. Coloco água em sua boca e bebo um pouco. Aos poucos senti meu corpo cansado e se desligando automaticamente, entrando em estado de vigília.

Depois de um tempo, me vejo em um lugar um tanto iluminado, porém com uma luz avermelhada. Mais a frente estava parado uma figura encapuzada de costas para mim. Sim, era a mesma figura que havia visto do lado de fora do abrigo.

Ele se virou para mim e pude ver, sua pele era negra como carvão e seus olhos escarlates, como o fogo que consumiu a Terra. Ele exalava aquele odor ácido que tinha sentido antes e em suas mãos ele carregava um artefato, como um cajado, que era maior que o próprio portador. Ele caminha lentamente em minha direção.

– Isso é real? -Me indago em meio a confusão de pensamentos.

– Sim e não.  Ele me responde claramente como se pudesse ter ouvido meu pensamento.-Quem é você? O que está acontecendo?

– Sou chamado Desolação em muitos mundos, fui mandado até aqui para acabar de vez com a praga que disseminou a destruição da vida neste planeta. O homem!

– Já fomos destruídos não percebe? Aquela guerra destruiu tudo!

– Não, houve sobreviventes. Vocês tiveram uma segunda chance, mas o mal esta incrustado no gene de sua raça. Em vez de lutarem pela sobrevivência, continuaram brigando pelo poder. A morte de sua anfitriã foi o que motivou a Ele a me enviar.

– Muitos eram inocentes…

– Não há homens inocentes!

Acordei assustado. O que era aquilo? Foi real, eu sentia que era real. Olhei pro Davie e percebi que já não havia mais vida em seus olhos. Com lágrimas escorrendo pelo meu rosto me levantei e segui em direção à porta do abrigo. Soltei as trancas e empurrei abrindo a pesada porta para fora. Aquela sensação foi magnífica, era dia já e o sol estava em seu ápice. Nunca tinha sentido o calor do sol em minha pele. Ajoelhei e chorando disse:

– Falhamos! Nos perdoe…

E então eu, o último homem vivo na face da Terra, me entreguei ao meu destino, ao destino da humanidade. Enfim a Terra foi curada do seu câncer!

Fonte: Minilua