Como seca pode explicar declínio da civilização maia

24/05/2016 18:55
 
 
 
 
Quando os conquistadores espanhóis zarparam para a América Central, em 1517, seu objetivo era derrotar a civilização maia, que dominava a região. Mas os colonizadores descobriram, ao chegar, que boa parte do trabalho já tinha sido feito para eles.
As imponentes cidades de calcário dos maias, uma marca registrada de uma das civilizações mais avançadas do Mundo Antigo, já estavam sendo invadidas pela floresta. O motivo pelo qual a civilização maia desapareceu é um dos maiores mistérios da história.
O povo sobreviveu. Houve inclusive resistência ao domínio europeu. Mas, quando os espanhóis chegaram, já tinha desaparecido o poder político e econômico que tinha erguido pirâmides e sustentado uma população que chegou a 2 milhões de pessoas.
 
As primeiras cidades maias foram construídas no primeiro milênio antes de Cristo, e a civilização chegou a seu apogeu por volta de 600 d.C. Arqueólogos já escavaram milhares de sítios maias, a maioria espalhada por uma região na parte sul da Península de Yucatán, no México, além de Belize e Guatemala.
 
É bastante provável que mais ruínas ainda estejam escondidas pela densa floresta tropical da região.
 
Depois de mais de 200 anos de estudos, conhecemos o suficiente sobre os maias para estarmos bem impressionados. Sua arte e arquitetura distintas nos levam a crer que eles eram exímios artesãos.
 
Os maias eram ainda intelectualmente avançados. Tinham um forte conhecimento de matemática e astronomia, que usavam para alinhar pirâmides e templos com movimentos dos astros. E usavam a única linguagem escrita conhecida na Mesoamérica, uma série de bizarros caracteres conhecidos como os Hieróglifos Maias.
As maravilhas deixadas para trás pelos maias valeram uma senhora reputação. Mas a maneira como sua civilização encontrou seu final é curiosa.
 
 
Comecemos com o que sabemos: por volta de 850 d.C., após séculos de prosperidade e hegemonia, os maias começaram a abandonar suas cidades, uma depois da outra. Em menos de 200 anos, sua civilização tinha se tornado uma fração de seu passado glorioso. Haveria algumas ressurgências isoladas, mas a grandiosidade maia estava perdida para sempre.
Além da escala tão monumental, o que fez o colapso maia tão chocante é que, apesar de décadas de estudos, os arqueólogos ainda não concordam sobre o que causou tudo isso. Assim como no caso do Império Romano, não parece haver um único culpado para a debacle maia. Mas a natureza desse declínio levou alguns pesquisadores a suspeitar que a civilização maia possa ter sido vítima de uma catástrofe - capaz de derrubar cidade após cidade em seu caminho.
 
Há teorias abundantes sobre o assunto. Algumas das mais comumente discutidas falam em invasão, guerra civil e colapso de rotas comerciais. Mas desde que cientistas, nos anos 90, começaram a analisar dados históricos sobre o clima, uma teoria ganhou popularidade: a de que os maias sofreram um período de mudanças ambientais severas.
Nos séculos imediatamente anteriores ao colapso maia - a chamada Idade Clássica, entre os anos 250 e 800 d.C. -, a civilização maia teve um boom. Cidades floresceram e colheitas eram abundantes. As informações climáticas (normalmente provenientes de formações em cavernas) mostram que durante este tempo a área ocupada pelos maias teve alto índice de chuva. Mas a mesma análise de informações mostra que, a partir do ano de 820, a região foi assolada por 95 anos de secas periódicas, algumas durando décadas.
 
Cientistas identificaram uma impressionante correlação entre a ocorrência das secas e o colapso maia. A maior parte das grandes cidades maias "caiu" entre 850 e 925 d.C., algo que coincidiu com quase um século de seca. Essa correlação não é suficiente para encerrar o mistério por si só, mas leva especialistas a desconfiar do clima como um dos principais causadores do declínio maia.
Um dos problemas com essa teoria é que nem todas as cidades sofreram com a seca. As cidades que caíram durante o período de estiagem do século 9 estavam majoritariamente localizadas na porção sul do território, onde hoje ficam Guatemala e Belize. No norte, porém, a civilização não apenas sobreviveu às secas como registrou desenvolvimento.
 
 
O norte tinha relativa prosperidade, com um aumento no número de centros urbanos, incluindo uma das mais grandiosas cidades maias: Chichen Itza. Por que a vida era tão diferente no norte?
 
Cientistas propuseram várias explicações para essa discrepância, mas nenhuma delas parece ter ganhado a batalha. No entanto, uma recente descoberta parece oferecer uma solução para o paradoxo.
 
Arqueólogos especializados na cultura maia têm dificuldades para estabelecer datas. Quase nenhum dos arquivos maias sobreviveu à colonização espanhola (por ordem de padres católicos, livros maias foram queimados aos montes e hoje apenas quatro sobrevivem). Sendo assim, para determinar uma linha de tempo para a civilização maia, cientistas se fiam em calendários registrados em monumentos, análises estilísticas de cerâmicas e em testes de carbono de materiais orgânicos.
 
Estudos anteriores já tinham determinado as idades aproximadas dos principais centros urbanos da civilização maia do norte. Foram eles que determinaram que o norte tinha sofrido as secas do século 9. Mas um novo trabalho, publicado em dezembro por arqueólogos americanos e britânicos, pela primeira vez traz um apanhado generalizado de datas relacionadas aos centros urbanos da região norte. São mais de 200 datas que permitiram aos pesquisadores estabelecer um retrato mais profundo dos tempos em que as cidades do norte estavam ativas, bem como os períodos em que entraram em declínio.
 
Os pesquisadores descobriram que o norte não apenas tinha sofrido declínio durante o período de seca, mas que isso ocorrera DUAS vezes. Isso com base no número de inscrições temporais na segunda metade do século 9. O mesmo padrão é encontrado em análise de carbono, que indicam, por exemplo, que a construção com o uso de madeira encolheu no mesmo período.
 
Para os cientistas, esses dados mostram que também havia declínio político-social no norte maia, que pode até ter enfrentado a crise melhor que o sul, mas ainda assim sofreu declínio. Só que nós já sabíamos que Chichen Itza e os outros centros maias do norte tinham sobrevivido bem ao longo do século 10.
 
É o segundo declínio identificado pelos cientistas que torna a história bem mais interessante e muda nosso conhecimento sobre os maias. Depois de uma recuperação no século - e que, interessantemente, coincide com um aumento no índice pluviométrico, pesquisadores notaram outra queda na construção civil em diversos sítios do norte: gravações em pedra e outras atividades ligadas à construção caíram pela metade entre 1000 e 1075 d.C.
E, assim como 200 anos antes, pesquisadores descobriram que o segundo declínio também ocorreu em tempos de seca, ainda mais severa que no século 9 - na verdade, a estiagem do século 11 foi a maior da região em 2 mil anos.
 
Se a primeira grande seca devastou os maias no sul, a segunda pode ter acabado com tudo no norte. Chichen Itza e outros importantes centros urbanos da região não voltariam a se recuperar. Houve algumas exceções - Mayapan, por exemplo, floresceu entre os séculos 13 e 15 -, mas elas nunca rivalizaram com as clássicas cidades maias em tamanho ou complexidade.
 

Mas como as mudanças climáticas derrubaram os maias?

 
A maior parte das explicações gira em torno da agricultura. Os maias, assim como todas as grandes civilizações, dependiam fortemente da agricultura para sua pujança econômica e para sustentar sua população. Um argumento simples é que a escassez na produção de alimentos gradualmente diminuiu a influência política da sociedade maia e levou à desintegração social. Mas o processo não foi tão direto assim.

 

"Sabíamos que já havia guerras e instabilidade política nos territórios maias antes das secas do século 9", diz Julie Hoggarth, da Baylor University, no Texas (EUA), e uma das coordenadoras do estudo climático publicado em dezembro.
Talvez os conflitos internos tenham se juntado ao efeito das secas: com a diminuição dos estoques de alimentos, a competição por recursos ficou intensa ao ponto de levar à ruptura social. Mas há uma terceira explicação, amparada no talento dos maias.
 
Além de grandes artesãos, eles eram grandes escultores ambientais.
Para produzir alimento suficiente para alimentar milhões, os maias escavaram imensos sistemas de canais que por vezes chegavam a centenas de quilômetros de extensão. Isso lhes permitia tornar áreas inférteis produtivas. Eles também derrubaram imensas áreas de florestas para a agricultura e a construção.
 
Alguns estudiosos creem que essas atividades teriam piorado os efeitos das mudanças climáticas: o desmatamento, por exemplo, teria tornado as secas mais rigorosas. Outra teoria é que o desenvolvimento da agricultura tenha levado a um crescimento populacional acelerado e mais vulnerável à escassez de alimentos.
Quaisquer que tenham sido as razões para o colapso, sabemos algo sobre o destino das pessoas que restaram. A partir de 1050 d.C., os maias pegaram a estrada. Abandonaram as regiões do interior e rumaram para a costa caribenha ou para locais com lagos. O êxodo pode ter sido motivado por fome, e a mudança para regiões mais úmidas fazia sentido, em especial fugindo da seca.
 

BBC