Cientistas descobrem mundo enterrado sob o gelo da Antártica

11/08/2016 22:25

 

 

O continente Antártico não é feito de apenas gelo. Apesar de sua superfície ser aproximadamente 98% coberta de água congelada, os 2% restantes dão uma pequena dica sobre o que pode estar abaixo. No período Cretáceo, quando os dinossauros não aviários ainda governavam o mundo, a Antártica estava coberta de florestas, quentes, densas, construídas sobre uma rocha sólida cheia de vales, rios, cânions, montanhas e lagos.

 

Três novos estudos sobre o lago subglacial Whillans revelam coletivamente que ele é um lugar complexo; um ambiente de zonas úmidas, semelhante a um pântano ou charco, com tanto água doce quanto salgada, com rios que fluem através dele em imensos trechos do continente do sul. Abaixo de 800 metros de gelo espesso, existe um mundo verdadeiramente único, isolado da superfície por até 1 milhão de anos – um cujo real lago líquido poderia ser surpreendentemente jovem. As informações são do site I Fucking Love Science.

 

“Este ambiente subglacial é análogo a uma zona úmida não vegetada dentro de uma planície costeira terrestre”, escrevem os autores de um dos estudos, publicados na “Earth and Planetary Science Letters” (EPSL). Segundo eles, a história dos lagos do local é curta, provavelmente apenas com décadas de idade.
 

Diversidade de estudos

 
 
Em 2013, os pesquisadores ficaram muito felizes quando removeram um núcleo de gelo do Lago Whillans e descobriram que ele continha 130 mil células por mililitro de água do lago subglacial – aproximadamente a mesma densidade de vida que é encontrada nas profundezas mais obscuras dos oceanos. Apesar de não ter visto a luz solar por um século, a vida ainda existia nestas profundidades frias.
 
Até agora, porém, esses pesquisadores – muitos dos quais são parte do projeto Whillans Ice Stream Subglacial Access Research Drilling (Wissard) – não sabiam muito bem como era a camada de terra ali. Os três novos trabalhos recém-publicados eliminaram um pouco do mistério, sendo que o primeiro deles, publicado na revista “Geophysical Research Letters”, descreve o sistema de drenagem do local.
 
Dados de GPS recolhidos ao longo de cinco anos por pesquisadores da Universidade da Califórnia, San Diego, revelam que o lago é drenado periodicamente durante vários meses ao invés de continuamente. Quando a drenagem acontece, o gelo acima se torna mais escorregadio e pode mover-se cerca de 4% mais rápido do que normalmente.
 
O estudo publicado na EPSL, liderado por pesquisadores da Northern Illinois University, também dos Estados Unidos, destaca que esta água corrente se move muito lentamente, tão lentamente, na verdade, que não tem energia suficiente para mover muitos sedimentos. Não só isso significa que o leito rochoso ali pouco mudou ao longo do tempo, mas todo o lago se assemelha a uma zona úmida dentro de uma planície costeira, como aqueles ao longo da costa do Golfo do México.
 
Surpreendentemente, eles também sugerem que o lago só existe dessa maneira há algumas décadas. O último estudo, publicado na revista “Geology” e liderado por pesquisadores da Universidade do Estado de Montana, EUA, conclui a partir da sua própria análise sedimentar que esta água líquida é maioritariamente proveniente do recente derretimento da base do gelo que recobre o lago, com uma contribuição menor da água do mar presa abaixo durante um período mais quente, interglacial.
No final das contas, o Lago Whillans é um ambiente dinâmico, paradoxalmente antigo e jovem como nenhum outro, e estes novos estudos meramente arranham a superfície deste reino escondido e misterioso. Há muito mais para ser investigado, já que este lago é apenas um dos cerca de 400 outros escondidos debaixo do gelo.