A Mansão ( Relato )

28/02/2015 13:16

 

 

 

O ano era 1992. Naquela época eu tinha 12 anos, meu irmão Ricardo tinha 13 e meu primo João se não me engano tinha 10. Nós eramos muito arteiros naquela época, sempre fazendo aquelas molecagens de sempre. Uma coisa que a gente sempre fazia era tocar a campainha das casas vizinhas e sair correndo, sabe? Coisa de moleque.
Um certo dia nós três andávamos pela rua quando nos deparamos com uma casa muito grande, a Mansão Machado, como a chamavam. Há muito tempo morou lá um senhor com sua esposa e seus filhos. Um dia ele encontrou a mulher com um amante na cama e sem pensar pegou uma arma, matou os dois e logo em seguida se matou. História clássica de tragédia, mas verídica.
Todos na cidade sabiam dessa história, inclusive eu. Meu irmão com sua cabeça fraca apostou cinqüenta reais que eu e meu primo não teríamos coragem de entrar lá. Nós apostamos, e se eu ganhasse meu primo iria dar cinqüenta reais pra cada um e se ele ganhasse nós daríamos cem reais pra ele, oferta justa.
Então, literalmente nos borrando de medo, nós dois (eu e meu primo) entramos na Mansão Machado. João falou que eu iria primeiro, como ele era mais novo aceitei.
Eu ainda me lembro do enorme portão enferrujado e velho que cercava aquela mansão e também de um jardim que mais parecia um cemitério. Seguimos uma trilha que levava até a porta da mansão que fez um barulho horrivel quando entramos. Como era três horas da tarde, estava claro, mas logo iria escurecer. As janelas da mansão mesmo velhas e quebradas, iluminando parcialmente o salão e fazendo aquele feixe de luz para contribuir com nosso medo. Logo na entrada se via um sofá em círculo vermelho e velho, uma escada longa de madeira e uma mesa com várias cadeiras. Na lateral se via um grande piano de cauda, mas muito gasto, talvez por cupins. Também havia outros móveis, mas estes estavam encobertos por panos brancos.
Era um cenário perfeito para filme de terror, o dia estava nublado e ajudava para que a mansão ficasse mais escura. Pegamos a lanterna e fomos adiante. Abaixo da escada havia uma portela e entramos lá, afinal era parte da aposta explorar todo o local. Meu primo estava quase urinando nas calças quando entramos na porta. Lá dentro havia uma grande fornalha e o que me lembro também é de uma pia com torneira. Nesse momento ouvimos um estrondo que parecia vir de dentro da mansão. João saiu correndo e deu pra ouvir o barulho da porta se abrindo e se fechando. Pronto! Estava sozinho, lutando pra conseguir minha parte da aposta. Naquela época, nossos pais não eram nada generosos e só davam uma graninha pra gente no natal ou no aniversário.      
Virei as costas para sair do local e de repente ouvi um barulho. Vi uma luz e senti um calor. Tinha certeza que a fornalha tinha se acendido sozinha. Meu coração disparou, mas ao me virar o forno estava apagado, escuro e gelado.
Depois do susto saí do quarto, fechei a porta e com a lanterna subi as escadas. Ao subir eu sentia como se alguém estivesse subindo também atrás de mim, me virei, mas não vi nada.
Ao terminar a escada eu vi um longo corredor com um tapete que percorria-o por inteiro e nesse corredor tinha portas e quadros na parede com retratos que deveriam ser da família do Senhor Machado. O corredor era frio e escuro, graças a lanterna consegui me localizar. A primeira porta dava em um quarto pequeno com um armário e uma cama de solteiro. Devia ser o quarto de algum empregado. O segundo quarto era idêntico ao primeiro, por haver apenas uma janela devia ser de outro empregado. Já o terceiro era maior, tinha um armário maior, uma cama maior e uma prateleira com livros e cadernos, devia ser de um dos filhos do Senhor. O quarto aposento era idêntico ao primeiro, mas tinha um guarda roupas maior do que o terceiro.
Finalmente cheguei ao quinto aposento. Não dava pra acreditar, estava no famoso quarto onde o Machado matou sua mulher, o amante e depois se suicidou. O quarto era muito grande e tinha uma cama com cortinas e um armário alto e com muitas roupas que devia ser do senhor e da mulher dele. De repente cheguei ao ápice do terror mental e físico. Primeiro a minha lanterna parou de funcionar e fiquei na escuridão total, depois disso eu pisei com meu tênis num objeto que não consegui identificar, quanto o peguei meu coração quase parou. Era um facão com manchas vermelhas na lâmina. Ou o senhor da mansão pintava quadros com facas ou eu estava segurando o objeto responsável por dois assasinatos e um suicídio. Quando essa idéia passou pela minha cabeça, quase desmaiei. Comecei a ouvir gritos de socorro e vozes que pareciam vir de dentro do meu ouvido. Sem pensar eu larguei a lanterna e a faca ali mesmo e sai correndo. Quando cheguei à escada foi como se alguém tivesse me empurrado com força e eu fui rolado escada abaixo até chegar ao térreo.
Todo machucado eu fui me arrastando até a porta com a sensação de que alguém estava me seguindo. Me levantei com dificuldade agarrado a maçaneta da porta. Abri, saí da mansão e fui me arrastando até o portão, estava com meu braço e minha perna com uma dor terrivel. Depois disso só lembro do meu irmão Ricardo e meu primo correndo em minha direção, fechei os olhos e acho que desmaiei.
Só me lembro de ter acordado no hospital com soro no meu braço, meu pai e minha mãe sentados em duas cadeiras do meu lado e meu irmão e meu primo em pé do lado deles.
Quando abri meus olhos e levantei meu braço meu pai veio até mim e me pediu explicação sobre o que tinha acontecido. Eu expliquei que eu e meu primo apostamos com meu irmão de nós dois entrarmos na Mansão Machado, depois que meu primo amarelou eu segui mansão adentro, explorei toda a mansão entrei nos quartos e que na hora de voltar caí na escada e me machuquei (não contei a ele sobre os acontecimentos sobrenaturais que eu passei). Ele me disse que foi sério e que eu havia quebrado uma perna e um braço e que se nós repetíssemos a façanha ele iria nos deixar de castigo.
Depois de passar do meu estado de choque nós cinco voltamos para casa e nunca mais nem passamos pelo quarteirão da Mansão Machado.
 
 

 

 

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